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Cinquenta anos depois, 'A Primeira Noite de um Homem' volta aos cinemas

Longa fala da iniciação amorosa e da revolta dos 'sixties'

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 06h00

O ano era 1967, véspera do hiperagitado 1968. Mesmo assim, já havia no ar nítidos sinais de que nuvens se acumulavam e podia vir tempestade. Mesmo na em tese acomodada indústria cinematográfica, pequenos abalos sísmicos já se faziam sentir. Um deles, um filme subversivo, que consolidava um ator em ascensão no estrelato – A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols, com Dustin Hoffman. Mais de meio século depois, essa pequena obra-prima volta ao circuito, em cópia remasterizada. 

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Hoje mal se tem ideia do choque produzido por The Graduate, seu título original em inglês. Recém-formado, Benjamin Braddock (Hoffman) volta ao lar, uma confortável mansão em Los Angeles. As primeiras cenas são dentro do avião, com o piloto anunciando o pouso, a temperatura local e dando as boas-vindas aos passageiros. Enfim, aquela formalidade de bordo. Depois, o rapaz pegando a mala na esteira, sendo recebido pela família e levado para casa, onde uma festa o espera. Se você não conhece o filme, por certo já ouviu a música que acompanha essas primeiras sequências – o magnífico The Sound of Silence, de Simon e Garfunkel. 

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Na casa, o tédio do rapaz é compensado pelo avanço voraz de uma mulher de meia-idade, Mrs. Robinson (Anne Bancroft). Ela cai em cima do rapaz e o atrai para sua casa usando de subterfúgios um tanto infantis. O filme poderia ser isso, e nada mais: história de uma iniciação sexual meio tardia, com uma mulher mais velha e insatisfeita no casamento. Mas há muito mais que vai sendo infiltrado nesse enredo inspirado em romance de Charles Webb. 

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Em princípio, estamos diante de um filme cômico. Prestam-se a isso as interpretações da dupla – o próprio Hoffman e Anne Bancroft. Há qualquer coisa de comovente, e de engraçado, na falta de jeito do rapaz inexperiente diante da mulher autoconfiante e determinada. A assimetria do casal é gritante. O tom de romance clandestino, numa sociedade ainda repressiva, aumenta a tensão, e também a graça. Há passagens compreensíveis para a época. Quem foi jovem nos anos 1960 sabe como era constrangedor reservar um quarto de hotel para um encontro amoroso. No entanto, a sra. Robinson parece segura e infalível em seus atos. Ela é quem dirige as ações e Benjamin a chamará por esta forma cerimoniosa até o final da história. Maneira de enfatizar a diferença de idades e o respeito, e mesmo temor, do rapaz diante da mulher poderosa colocada pelo destino em seu caminho. A graça do filme, em seu princípio, vem dessa diferença entre os dois. O riso instala-se entre a inadequação de um e a voracidade da outra. 

Os diálogos são impagáveis. Benjamin tenta introduzir alguma normalidade naquele relacionamento; Robinson faz questão de deixá-lo no plano cru da sexualidade. É cômico – e também constrangedor – quando Benjamin tenta discutir arte ou qualquer outro assunto com uma parceira sem tempo ou apetite para tais abstrações.

Há também o entorno social, que marca a inadequação do jovem em relação à sociedade à qual pertence, mas da qual não se sente parte. Um dos convidados da festa o chama para uma conversa particular e resume seu conselho em uma só palavra: “Plásticos!”. É o futuro, ensina a um jovem entediado. Os pais de Benjamin (William Daniels e Elizabeth Wilson) são insossos e repetitivos em sua preocupação com o futuro do filho. Vizinhos, amigos, e o próprio marido da sra. Robinson (Murray Hamilton) parecem protótipos do arrivismo afluente da Califórnia. 

Abre-se, então, aquele corte geracional que torna o filme típico de uma época. A plateia jovem podia se identificar com o desajeitado Benjamin, em especial porque na segunda parte do filme ele assumirá o papel de herói romântico. Essa característica produz o enorme sucesso da época. A crítica da revista New Yorker, Pauline Kael, escreve: “O filme funcionava como um psicodrama; o formando (Hoffman) representava a verdade; os mais velhos, a impostura e a sexualidade corrupta. E essa visão de ‘fosso geracional’ entre juventude e velhice entrou na corrente sanguínea americana; muitos espectadores iam ver o filme repetidas vezes” (em 1001 Noites no Cinema, seleção de críticas de Kael feita por Sérgio Augusto, livro editado pela Cia. das Letras). Ou seja: de alguma forma, A Primeira Noite de Um Homem captava o espírito do tempo. 

E, talvez mais ainda, ao mudar seu registro do cômico para o melodramático com a entrada em cena da nova personagem, Elaine (Katharine Ross), filha da sra. Robinson. Essa presença, além de bagunçar o arranjo estabelecido, põe ainda mais em evidência o conflito geracional, que é o motor do enredo e o faz deslanchar de vez. 

Pela direção ágil, sutilmente subversiva e ácida, Mike Nichols (1931-2014), berlinense que escapou da guerra e radicou-se nos Estados Unidos, ganhou o Oscar de melhor diretor em 1967. O estilo de filmagem expressa um frescor ímpar. Tanto assim que custa a crer que se trata de um filme com mais de 50 anos nas costas. O tempo não lhe pesou. Pelo contrário, com a cópia restaurada, recupera-se na íntegra o seu encanto. A trilha sonora inclui ainda dois outros clássicos de Simon & Garfunkel – Scarborough Fair e Mrs. Robinson. São coisas assim que ajudam uma obra a marcar um tempo e tornar-se por isso clássica. 

Nessa época, o cinema de Hollywood aproveitou a crise e renovou-se na estética e na temática, revelando novos cineastas, atores e atrizes dispostos a encarar desafios. Resolveu-se que filmes adultos encontrariam seu público. E isso de fato aconteceu durante algum tempo, até que os blockbusters infantilizados recuperassem seus direitos e retomassem terreno. Hoje, filme adulto como A Primeira Noite de Um Homem, só fora do mainstream. 

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