Cinemateca, um ciclo de filmes fundamentais

O cinema começou no subsolo do Café Indien, em Paris, no histórico 28 de dezembro de 1895 - há quase 108 anos, portanto -, mas logo em seguida já estava na estrada, por meio de cinegrafistas que buscavam imagens exóticas para exibir nas feiras que foram o primeiro reduto do cinematógrafo criado pelos irmãos Lumière. É mais de um século de cinema on the road, consolidado pelas odisséias do mestre John Ford e pelos motociclistas de Sem Destino (Easy Rider), um marco do cinema da contracultura, nos anos 1960. Pois o cinema está com o pé na estrada, de novo. Começou esta semana na Sala Cinemateca e vai até 16 de outubro um ciclo de 13 filmes que leva o título justamente de Mostra On the Road. São filmes produzidos entre 1968 e 1999, em países tão distintos, culturalmente, quanto o Nepal, a Holanda, EUA, Portugal, Espanha, Grécia, Itália e Brasil. Preste atenção nos títulos: Himalaia, de Éric Valli; Felice, Felice, de Peter Delpeut; Western, de Manuel Poirier; Viagens, de Emmanuel Finkiel; A Vida Sonhada dos Anjos, de Éric Zonka; Um Dia em Nova York, de Greg Mottola; Viagem ao Princípio do Mundo, de Manoel de Oliveira; Stress Es Tres, Tres, de Carlos Saura; Um Olhar a Cada Dia, de Theo Angelopoulos; O Oitavo Dia, de Jacob Von Dormael; Lamerica, o Sonho de Chegar, de Gianni Amelio; Anahy de las Missiones, de Sérgio Silva; e Doida Demais, de Sérgio Rezende. Aos dois últimos, que são os filmes brasileiros do programa, poderia somar-se O Caminho das Nuvens, de Vicente Amorim, outro road movie em exibição nos cinemas e no qual os personagens usam bicicletas para conhecer o Brasil pedalando. Vários desses filmes roçam o conceito da obra-prima e alguns são obras-primas de fato. O de Oliveira, por exemplo, é magnífico, sobre um ator francês que participa de um filme rodado em Portugal e decide visitar uma tia, irmã de seu pai, que emigrou para a França. A idéia do choque cultural serve de veículo para que Oliveira retome a discussão, sempre essencial em sua obra, sobre a saudade, como expressão da alma portuguesa. Marcello Mastroianni, em seu último papel, torna ainda melhor o filme, que representa um dos momentos iluminados da carreira do grande diretor português. Viagens não é menos rico em densidades e sutilezas. As histórias de três mulheres judias, todas idosas, entrelaçam-se para que o diretor Finkiel possa falar de identidade como forma de afirmação de outro tipo de saudade, de um mundo que conseguiu sobreviver ao horror do Holocausto, mesmo pagando um alto preço por isso. E há Felice Felice, que termina, metaforicamente, naquele dia de dezembro em que os irmãos Lumière apresentaram ao mundo o seu cinematógrafo. Todos os filmes do ciclo da Cinemateca são interessantes, até os que não são bons de verdade. Mostra on the Road/ Com o Pé na Estrada. Quinta, às 17h40, 19h20, 21h10; sexta, às 16h45, 18h40, 21h10; sábado, às 14h40, 16h40, 18h50, 20h45; domingo, às 14h40, 16h40, 18h35, 20h05. R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia). Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5081-2954. Até 16/10

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