Cinemateca realiza ciclo sobre "Nazismo e Cinema"

Nazismo e Cinema, mostra que a Cinemateca apresenta a partir de hoje, traz de volta o antigo problema - com representar na tela, de maneira digna e veraz, tema tão atroz? Pois bem, os 17 filmes programados dão respostas diferentes a essa pergunta. Um dos mais estimulantes passa logo no primeiro dia. Trata-se de A Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, documentário que tenta mostrar como a estetização do Reich, sua obsessão perfeccionista pela "boa forma", era em tudo coerente com um projeto racista de extermínio. O filme nos deixa profundas dúvidas sobre os ideais arianos de beleza, equilíbrio e depuração embutidos na arquitetura, na música e, finalmente, na raça. Esse ideal é atingido com a exclusão dos demais, dos "diferentes", com sua conseqüente eliminação. Está tudo aí, como sabe quem acompanhou a trajetória estética de Leni Riefenstahl, ausente desta retrospectiva. Em compensação, a curadoria programou filmes raros, como Brutalidade em Pedra, de Alexander Kluge, um precursor, pelo menos temático, de Cohen, uma vez que examina o ideário do nacional-socialismo a partir dos seus pressupostos arquitetônicos. Outra atração é Amém, polêmico filme do diretor franco-grego Konstantin Costa-Gavras. Ele causou certo escândalo recente ao investigar os bastidores da Igreja Católica durante a 2ª Guerra Mundial. O Vaticano teria conhecimento da sorte dos judeus sob Hitler, mas não tomou nenhuma providência a respeito. São denúncias antigas e já veiculadas sob a forma de livros, mas, como se sabe, quando as coisas chegam ao cinema parece que repercutem muito mais. Mas poucos filmes parecem tão chocantes quanto Eu Fui a Secretária de Hitler, de André Heller e Othmar Schmiderer. Trata-se do longo depoimento de Traudl Junge, secretária do Führer na fase final da guerra. Traudl acompanhou Hitler em viagens e foi morar com a entourage nazista no bunker em Berlim. Conheceu o poder em sua intimidade, e seu depoimento é quase inacreditável. As memórias de Traudl chegaram agora em forma de livro, pela Ediouro. Não menos impactante é a versão ficcional da intimidade de Hitler, em Moloch, do russo Aleksander Sokurov. O caráter doentio dos bastidores do horror às vezes aparece com mais força na ficção do que no documentário. Complementam-se.

Agencia Estado,

12 de julho de 2005 | 13h43

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