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Cinemateca promove a 6ª Jornada de Cinema Silencioso

Evento começa neste final de semana e segue até o dia 19 com uma intensa programação

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

10 de agosto de 2012 | 12h57

Silencioso, de verdade, o cinema nunca foi, ou foi por um período. Nascido como experimento científico dos irmãos Lumière, surgiu atado à realidade. Georges Méliès, um mágico, ensinou o cinematógrafo dos Lumière a sonhar, enveredou pela ficção, o cinema foi para as feiras, tinha comentadores/narradores da ação na tela, acompanhamento musical. Mas a estética era silenciosa - lentas fusões, quando não (um paradoxo) a aceleração da imagem, projetada a 18 quadros por segundo, e que Charles Chaplin utilizou para formatar a mímica de seu personagem Carlitos.

Tudo isso vale lembrar neste momento em que, em São Paulo, o cinema volta à feira. A velha história (re)começa. A Cinemateca Brasileira, no antigo Matadouro de São Paulo, vira hoje uma feira - um Salão de Novidades - para abrigar a 6.ª Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Uma cinemateca é, em si, um museu do cinema, uma memória (viva) do passado. Debruçar-se sobre uma produção já centenária, ir aos primórdios, não representa apenas uma vontade de escavar neste passado longínquo. O que a Jornada quer fazer é promover o diálogo entre as obras do começo do século passado e o contexto atual do cinema.

Uma frase retirada do texto de apresentação dos curadores é exemplar - “A proposta é reunir diferentes contribuições para se pensar o cinema enquanto expressão nascida entre as técnica e a ciência, recuperando sua natureza popular nas primeiras décadas de vida.” A Jornada nunca foi tão ‘experimental’ e, dessa maneira, como todo ‘experimento’, seus rumos vão depender da acolhida do público ao que os curadores programaram (existem mais dois - Felipe de Moraes e Rafael Zanatto).

O próprio termo ‘Salão de Novidades’ evoca o salão homônimo do pioneiro brasileiro Paschoal Segretto e algo mais - busca relações entre as artes, no momento em que o cinema, com as artes cênicas visuais em geral, enfrenta o desafio das novas tecnologias. E viva o circo, não apenas por sua ligação com as origens - o cinema das feiras -, mas pelo uso que terá para as vanguardas do começo do século passado, especialmente no cinema russo, no momento em que a revolução de 1917 instala os sovietes (e uma concepção social e política que virou permanente motivo de discussão, ao longo do século).

A 6.ª Jornada resgata tradição e novidade (modernidade), de forma a surpreender cinéfilos de carteirinha. Uma seção intitulada Cinema Soviético dos Anos 20 - Massas e Poder vai resgatar experimentos que buscavam uma nova representação estética para a ordem social que deslocava o poder para a classe trabalhadora. Lev Kulechov e Jakov Protazanov anteciparam Sergei M. Eisenstein e V.I. Pudovkin. Outra seção, Luzes e Sombras, privilegia a radicalidade plástica das imagens, com ênfase para a contribuição do expressionismo alemão, cujo grande clássico, O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, será apresentado numa versão restaurada zero bala.

Funny ladies. Embora não exista propriamente um copyright, a expressão ‘jornada de cinema silencioso’ associou-se, no imaginário dos estudiosos e fãs de cinema antigo, à cidade italiana de Pordenone, que, há anos, sedia o evento pioneiro do gênero, em todo o mundo. Os destaques de Pordenone trazem ao Salão de Novidades da Cinemateca quatro programas. O mais raro deles talvez seja a seleção das funny ladies da Coleção Desmet - curtas produzidos entre 1912 e 14 vão revelar as mulheres comediantes que, na França, Itália, Inglaterra e nos Estados Unidos, faziam rir antes que Charles Chaplin & cia. viessem lhes roubar a cena.

Pordenone oferece à Cinemateca Brasileira outro programa, Os Perigos do Cinematógrafo, sobre a presença do cinema no cotidiano de 100 anos atrás, mais duas raridades - o encontro de dois mitos do cinema mudo, Rodolfo Valentino e Gloria Swanson, em Esposa e Mártir, melodrama de Sam Wood, e O Jovem Pastor, de Penrhyn Stanlaws, baseado numa peça de J.M. Barrie, o autor de Peter Pan. O Brasil contribui com uma seleção de documentários que retratam ‘o espetáculo de 1922’, título da seção. A exposição do centenário da independência, a chegada dos aviadores portugueses que fizeram a travessia do Atlântico, o resgate da construção do museu e do monumento no Parque do Ipiranga, etc.

Todas essas imagens são fascinantes e o experimentalismo visual, com seus cortes abruptos e a justaposição de cenas, influi na seleção musical. A relação com a música, ressaltam os curadores, “é ainda mais fértil nos filmes em que sobressai o aspecto pictórico. Ela ganha autonomia, relaciona-se à exploração de timbres e dinâmicas, recursos comuns na improvisação livre e na música contemporânea de concerto”. Abaetetuba, Camerata Aberta, Objeto Amarelo, Marcelo Manga, Mário Manga, Maurício Takaras e Guilherme Granado, Paulo Santos, Zé Rolê o seu Psilosamples - a Jornada de Cinema Silencioso, ó paradoxo, também é um evento para os ouvidos.

Todos esses filmes, e inventos, incorporam a atmosfera dos experimentos cênicos no teatro de vanguarda do alvorecer do século 20. A jornada de cinema nunca teve tanto teatro. O salão de novidades traz tudo - projeção ao ar livre, gabinete de curiosidades, grand guignol, teatro pastelão, a Vênus Hotentote, o Homem Cachorro, o ilusionista. Com a teatralização, imagens prisioneiras da imobilidade vão adquirir vida. O espetáculo que agora começa segue até dia 19.

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