Cinemateca celebra a arte de Jean-Claude Carrière

Nem parece que ele é um dos maiores roteiristas do mundo. Aliás, a definição de roteirista, aplicada a Jean-Claude Carrière, soa como uma redução, pois ele, além de ter colaborado com grandes diretores como Luís Buñuel, Milos Forman, Philip Kaufman, Jean-Luc Godard, Andrzej Wajda e Peter Brook, entre outros, também é autor de peças, romances e adora ministrar oficinas e conferências. Com uma modéstia que parece até excessiva, Carrière gosta de dizer que roteiro bom é aquele que dá origem a um bom filme ou então que o destino de um roteiro, por melhor que seja, é a lata de lixo - depois de filmado (de passar pela câmera, como dizia Alfred Hitchcock), ele não tem mais serventia.Faz sentido. Michelangelo Antonioni também se refere ao roteiro como ´páginas mortas´, que só ganham vida por meio da mise-en-scène, da carnalidade dos atores, do trabalho de realização e edição que constrói, do papel, senão exatamente a realidade, pelo menos uma idéia de realidade filtrada pelo olhar do diretor. Tudo isso pode ser lembrado agora que começa na Sala Cinemateca o ciclo Jean-Claude Carrière - Roteirista de Cinema. Até o dia 2, serão exibidos 13 filmes que ostentam a assinatura de Carrière no roteiro. Por mais valiosa que seja sua colaboração, é a visão dos autores - dos diretores - que você vai reter.Afinal, são filmes como A Bela da Tarde e O Estranho Caminho de São Tiago, Valmont - Uma História de Seduções, Um Amor de Swann, Brincando nos Campos do Senhor, Mahabaratta, A Insustentável Leveza do Ser, O Tambor, Os Indiscretos Pingos da Chuva, Passion, e até um inédito, que será exibido na versão original, sem legendas, O Retorno de Martin Guerre, do francês Daniel Vigne, que Hollywood refilmou como Sommersby, o Retorno de Um Estranho, de Jon Amiel, com Jodie Foster e Richard Gere nos papéis de Nathalie Baye e Gérard Depardieu. São roteiros originais ou adaptados, não importa. Em todos eles, Carrière põe sua habilidade prodigiosa de escritor a serviço dos diretores, que são os artistas que assinam essas obras.Carrière construiu uma história no monte de sensações e anotações que compõe a narrativa digressiva de A Insustentável Leza do Ser, adaptado do livro de Milan Kundera. Muitas vezes, ele compara sua atividade à de Xerezade ou, então, à de Ariadne, dizendo que sua função é a de tecer um fio para que o cineasta e a equipe técnica se guiem no labirinto do filme. Adaptar livros tão volumosos quanto Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou O Tambor, de Gunter Grass, buscar o fio de uma obra tão extensa quanto o Mahabaratta, tudo isso impressiona, claro, mas o desafio não é maior do que o de roteirizar o surrealismo de Buñuel em O Estranho Caminho de Santiago ou sistematizar a revolução audiovisual de Godard em Passion, filme-reflexão sobre a pintura.Numa entrevista ao Estado, há dez anos, na volta de Brasília, onde ministrara uma oficina de roteiros, Carrière disse que o roteirista é o contador de histórias de hoje, retomando, com todos os recursos modernos, a função do velho contador árabe. Mas ele (o roteirista) precisa ter muito claro que faz sua parte, apenas. Pois se o cinema é uma arte de criação coletiva, tudo serve à expressão do diretor, e apenas dele. Carrière lembra que era um jovem deslumbrado quando conheceu Buñuel. Ele lhe ensinou tudo, inclusive que o bom roteirista deve saber dizer não ao diretor. Discordar é saudável, mas, no final, ambos precisam acertar suas idéias para que o filme dê certo. Carrière compara o roteiro à lagarta e o filme à borboleta. A lagarta vira borboleta, mas diante das cores, da beleza dela, quem se lembra do que lhe deu origem? "A lagarta carrega em si os elementos da borboleta, mas nunca vai voar." A metáfora não poderia ser mais eficiente e funcional. O vôo é o que nós, cinéfilos, aguardamos. Vários filmes do ciclo (os de Buñuel, Godard, Kaufman) voam tão alto que são referências dessa arte chamada cinema. Carrière: Roteirista. Hoje, 16h20, Um Amor de Swann (1984), de Volker Schlõndorff; 18h25, O Mahabharata (1990), de Peter Brook; 21h20, A Bela da Tarde (1967), de Luis Buñuel. Amanhã, 19h15, Os Indiscretos Pingos de Chuva (1982), de J. Brialy; 21h10, Reencarnação (2004), de J. Glazer. Sala Cinemateca. Largo Sen. Raul Cardoso, 207, 5084-2177. 4.ª a dom. R$ 8. Até 2/7

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