Cinemas recebem mais um fenômeno argentino

Lucrecia Martel é miúda e possui olhos imensos. Você olha para o rosto dela e só vê aqueles olhos. Lucrecia lembra um pouco Maria de Medeiros. Só podia virar diretora, condenada a ver o mundo através da janela do cinema. Ela acha graça quando o repórter do Estado lhe diz isso. Foi no Festival de Berlim de 2001, no qual o filme dela, La Ciénaga, ganhou o prêmio de diretor(a) estreante. Houve outra entrevista, depois, feita por telefone quando La Ciénaga passou na Mostra Internacional de Cinema. Com o título de Pântano, o filme estreou sexta no Brasil - por coincidência, no mesmo dia em que Diários de Motocicleta chegou ao público brasileiro. Lucrecia e Walter Salles estarão na disputa pela Palma de Ouro, no Festival de Cannes que começa dia 12. Ela concorre com seu novo filme, La Niña Santa. Pântano talvez seja o maior fenômeno do cinema argentino nos últimos anos.Houve outros filmes que fizeram mais sucesso de público, mas Lucrecia obteve raro reconhecimento para seu cinema de autora. E um filme com o perfil do dela, que faz 120 mil espectadores num mercado como o argentino - bem menor do que o brasileiro -, é também um sucesso de público. Lucrecia conta que, no Sundance, teve de ouvir de produtores americanos que a estrutura de Pântano era insuficientemente construída. "Eles queriam, de certo, mais uma história sobre uma mãe bêbada e a decadência de uma família." Não era o que Lucrecia imaginava. Ela sempre pensou em Pântano associado a um certo clima.Embora inspirado em eventos da história da família da diretora, Pântano não é necessariamente um filme autobiográfico. Lucrecia lembra que sua avó lhe contava histórias do escritor Horácio Quiroga como se fossem invenções dela. Quiroga escreve contos maravilhosos, mas que são mórbidos. A menina Lucrecia criou-se ouvindo aquelas histórias que achava que pertenciam ao seu universo familiar. Aos 15 anos, ganhou uma câmera e passou a filmar os pais, os irmãos, as irmãs.Nascida e criada numa pequena cidade do norte da Argentina, Lucrecia via westerns na TV. Até hoje adora este tipo de cinema. Claustrofóbica, quase não vê filmes em salas. Revela, o que não deixa de ser curioso, que se Pântano não fosse dela talvez não tivesse paciência nem vontade de acompanhar as numerosas exibições do filme, em foros nacionais e internacionais. Ela chama a atenção para o fato de que a fazenda da família de Pântano se chama Mandrágora. Sempre foi atraída pela planta que possui propriedades anestésicas e afrodisíacas e, como tal, foi muito usada para feitiçarias na Antiguidade e na Idade Média. Lucrecia queria que seu filme evoluísse em torno desses dois pólos - a languidez e a volúpia. Diz que é, para ela, o drama mais profundo de Pântano. Os personagens criam proteções para fugir da realidade. Conseguem e isto lhes impede de ver como suas vidas vão mal. Só poderia terminar em tragédia.Para o espectador que conhece um pouco o cinema argentino talvez seja um choque ver a estrela de Leopoldo Torre Nilsson, atriz de alguns dos filmes mais famosos do diretor considerado o mais importante da Argentina nos anos 1950 e 60, no papel da matriarca. Graciela Borges era uma deusa. Expõe-se agora no papel dessa mulher cuja destruição moral e física encerra a própria desagregação da família. "Graciela foi muito corajosa ao aceitar o papel. Devo muito a ela", diz Lucrecia. A diretora escreveu o novo filme em Paris, entre o final de 2001 e o início de 2002, graças a uma bolsa da Cinéfondation. Diz que o cinema, para ela, é uma forma de exorcizar os medos da infância. Conseguiu-o em Pântano. A expectativa é de que consiga de novo em La Niña Santa.

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