Cinema vai às ruas atrás de cidadania

O filme começa a rodar no projetor. As primeiras cenas da película ganham vida no telão improvisado ou mesmo no muro branco. A platéia é formada por espectadores que conhecem cinema apenas nas dimensões reduzidas de um aparelho de TV. Têm como endereço regiões carentes ou cidades desprovidas de salas de exibição.Com auxílio de um projetor de 16 milímetros, tela e caixas de som, o cineasta Christian Saghaard conseguiu impressionar um público carente de 150 pessoas, na première do projeto itinerante Cinemam na Rua, que ocupou a sede do Ação Comunitário do Brasil, na zona sul de São Paulo, no último dia 14. Resultado de uma parceria entre Educativo MAM (um dos setores do Museu de Arte Moderna), Ação Comunitária e projeto Intervenções Urbanas, o Cinemam na Rua apresenta diretrizes bem definidas: levar cinema brasileiro para comunidade carente e, de preferência, ao ar livre. O rolo de filme trará uma série de cinco curtas-metragens por sessão. "A princípio, faremos sessões em entidades ligadas ao Ação Comunitária", avisa a coordenadora do Educativo MAM, Vera Barros. Ampliar a área de ação do projeto será possível com a ajuda de patrocínio, já que o Educativo desenvolverá o trabalho com recursos próprios. "A previsão é de que o projeto tenha um custo de R$ 12 mil ao ano, incluindo transporte, equipamento e funcionários." A próxima sessão está marcada para dia 28 de julho, às 18h30, na Congregação Evangélica Luterana Ebenezer, na zona sul de São Paulo, onde serão exibidos os curtas Viver a Vida, de Tata Amaral, Frankestein Punk, de Caco Hamburger e Eliana Fonseca. Além de participar do Cinemam na Rua, Christian Saghaard mantém o projeto pessoal - e também itinerante - Intervenções Urbanas. Criado há seis anos, o Intervenções perambula pelos mais diferentes espaços, desde ambientes ao ar livre até estações de trens. "Nosso objetivo é aproximar o cinema de um público que não está acostumado a freqüentar exibições de curtas", define o cineasta.Pelo mesmo motivo, os cineastas Laís Bodansky e Luiz Bolognesi - responsáveis pela realização do badalado O Bicho de Sete Cabeças - investiram no projeto Cine Mambembe, iniciado em 1995. "Os espaços para a exibição de curtas-metragens são muito restritos", afirma Bolognesi, com conhecimento de causa. Há seis anos, quando as produções Pedro e o Senhor, do cineasta e de Laís, sua mulher, e Cartão Vermelho, dirigido por Laís, estavam sendo finalizados, ambos depararam-se com o problema. "Ao mesmo tempo que divulgamos o trabalho de outros cineastas, levamos cinema brasileiro para quem não tem acesso". Comunidades carentes e escolas públicas são os principais alvos do projeto. Equipados com um projetor 16 milímetros e tela desmontável, o Cine Mambembe circula pelo Brasil sem qualquer tipo de patrocínio, contando somente com a parceria de prefeituras locais. Recentemente, eles apresentaram a nova versão do projeto na cidade de Votorantim, em São Paulo, exibindo o longa Bicho de Sete Cabeças. O projeto Cinema BR em Movimento, idealizado pelo cineasta Alberto Graças no ano passado e com sede no Rio, possui dois tipos de espectadores: universitários e comunidades de periferia. "Segundo uma pesquisa do IBGE, cerca de 92% dos municípios brasileiros não têm salas de cinema", lembra o cineasta Flávio Cândido, coordenador do Circuito Sem Tela, que integra o Cine BR em Movimento. Já a equipe do projeto Roda Cine percorre as estradas do Rio Grande do Sul (RS) desde o começo do ano. "A idéia surgiu pela necessidade de reaproximar cinema brasileiro e sua platéia", comenta Angelisa Stein, diretora do Instituto Estadual de Cinema, órgão da Secretaria de Estado da Cultura do RS. Segundo ela, o Estado apresenta 121 salas de cinema, das quais 48% estão concentrados em Porto Alegre. "Por isso, o Roda Cine não vai à capital, só às outras cidades."

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