Cinema: Recife chama o público para sua festa

Todo poder às mulheres. A diretora do Cine PE - Festival do Audiovisual de Pernambuco, Sandra Bertini, convidou a jornalista e crítica Maria do Rosário Caetano para assessorá-la na curadoria do evento que começa no domingo. O Festival do Recife, como é mais conhecido, chega à sua décima edição. Sua fama é a de ser o festival mais caloroso do cinema brasileiro, com platéias que, com freqüência, ultrapassam as três mil pessoas no Cine-Teatro Guararapes, onde se realizam as projeções (e que, do rigoroso ponto de vista geográfico, fica em Olinda). Um sucesso tão grande de público deveria fazer com que os diretores corressem para ter seus filmes selecionados para o Recife. Sandra já se acostumou a ouvir não. O motivo não é nenhuma falta de credibilidade do festival. Num momento de recuo do público, quando a média de freqüência dos filmes nacionais anda muito baixa, 3 mil espectadores de uma só tacada podem significar toda a platéia que uma produção, qualquer que seja, se arrisca a ter na cidade. Sandra assume o ônus e o bônus da seleção do Recife-2006. "Nosso festival não tem um perfil político, não seleciona filmes por serem alternativos, experimentais nem comerciais. Queremos ser a cara do cinema brasileiro, em todas as suas tendências", ela explica. Para chegar a isso, Sandra recusou uma regra da maioria dos festivais - e que virou dogma na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Sandra abriu mão da ditadura do ineditismo. Escolheu filmes que já estrearam no Rio e em São Paulo - ou integraram a seleção de festivais no País e no exterior -, mas permanecem inéditos no Recife. Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos, de Ugo Giorgetti, abre amanhã o 10º Cine PE. Em São Paulo, no fim de semana de estréia, na semana passada, Boleiros 2 fez míseros 500 espectadores. No Recife, numa só apresentação, multiplicará por seis o número. "Acho que Boleiros 2 tem tudo a ver com o festival, ainda mais num ano de Copa, como este, no qual o futebol está solto no imaginário coletivo", explica Sandra Bertini. A seleção de Árido Movie, de Lírio Ferreira, tem outra explicação. "É um filme forte, original, de um diretor local. Lírio vai somar para a gente." Também já estrearam no centro do País ou tiveram exibições em festivais - Tapete Vermelho, de Luiz Alberto Gal Pereira, e Meninas, o documentário de Sandra Werneck que integrou a programação paralela do recente Festival de Berlim, em fevereiro. Inaugurado com Boleiros 2, que vai passar fora do concurso, o Cine PE terminará no sábado, dia 22, com a exibição de outro filme que não participa da competição - Achados e Perdidos, de José Joffily. Entre estes extremos, sete títulos vão disputar os prêmios Calunga da mostra de longas em 35 mm, a menina dos olhos de toda seleção - três são documentários; outros três, ficções; e uma animação. Esta última é Wood&Stock: Sexo, Orégano e Rock´n´Roll, de Otto Guerra. Os documentários são - o já citado Meninas, de Sandra Werneck; Orange de Itamaracá, de Franklin Jr. e Márcio Câmera; e Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. As ficções são - Tapete Vermelho, de Gal Pereira; Árido Movie, de Lírio Ferreira; e o ineditíssimo Veias e Vinhos, de João Batista de Andrade, que terá sua primeira exibição pública no Recife. Homenagens A programação geral do evento contempla competição de curtas, mostra de vídeos digitais, festivalzinho (com filmes para crianças), oficinas e workshops, homenagens. O patrocínio é da Petrobrás, com a Chesf, Companhia Hidrelétrica do São Francisco, Governo do Estado de Pernambuco e Prefeitura do Recife. Como todo ano, o festival presta homenagens, divididas em artísticas e institucionais. As homenageadas artísticas serão Tônia Carrero e Lídia Matos. Tônia foi estrela da Vera Cruz, nos anos 1950, imediatamente arrebatando o público por sua beleza, que iluminou esse Brasil no teatro, cinema e TV. Aos 80 e tantos anos, Tônia continua no palco. A trajetória de Lídia Matos não é menos importante. A atriz que dividiu a cena com Carmen Santos e Celso Guimarães em Argila, de Humberto Mauro, em 1940, recebeu o prêmio de melhor coadjuvante no Festival de Gramado de 2000 por seu papel em Eu Não Conhecia Tururu, de Florinda Bolkan. Justamente Gramado. O festival gaúcho, que começou brasileiro e hoje é latino e brasileiro, receberá uma homenagem institucional no palco do Cine-Teatro Guararapes. "Nosso festival nasceu em Gramado", justifica Sandra Bertini. A Chesf também será homenageada. "É a maior investidora de cinema da região, e isso é muito importante para o audiovisual de Pernambuco e do Nordeste em geral", Sandra acrescenta. O próprio festival não deixa de auto-homenagear-se, comemorando seu décimo aniversário com a edição de um livro, Quando o Caso É de Cinema, a Paixão é Um Festival, uma parceria com a Gráfica Editora Nordeste, no qual o criador do evento, Alfredo Bertini, evoca as lutas desta década prodigiosa e conta ´causos´, alguns tensos, muitos emocionantes, quase todos divertidos, que marcaram o Recife. Qual é o legado destes dez anos? "Foi a contribuição que o festival prestou ao desenvolvimento do audiovisual na região, promovendo encontros, discutindo filmes, propiciando o desenvolvimento de vocações, formando platéias", resume a entusiasmada Sandra.

Agencia Estado,

15 de abril de 2006 | 11h31

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