Cinema peruano brilha em Gramado

Depois da homenagem ao ator Paulo José, que ganhou o troféu Oscarito, conferido àqueles que se destacaram pela contribuição à arte cinematográfica brasileira, foi exibido o filme da mostra competitiva que por enquanto recebeu os mais calorosos aplausos da platéia no 28º Festival de Gramado Cinema Latino e Brasileiro. Trata-se de Pantaléon y las Visitadoras, de Francisco J. Lombardi, produção peruana baseada em obra homônima do escritor Mario Vargas Llosa.A homenagem a Paulo José, apesar de se sustentar sozinha pelas palavras do próprio ator, foi burocrática demais. Principalmente quando o prêmio foi passado ao homenageado das mãos do diretor de um dos patrocinadores do evento. O vídeo que precedeu a entrega do prêmio, com depoimentos de amigos como Domingos de Oliveira, Sérgio Rezende, Paulo Thiago, Pedro Bial, Fernanda Montenegro e das filhas Bel Kutner e Ana Kutner emocionou principalmente pela confissão do próprio Paulo José. Ele disse que depois de já ter feito quase tudo no que diz respeito a cinema, teatro e televisão, ainda sonha em fazer mais um longa-metragem. Curtas - Os curtas-metragens passariam despercebidos se não fosse por Tepê, de José Eduardo Belmonte. O curta de Paulo Halm, Retrato do Artista com um 38 na Mão, pareceu mais uma desculpa filosófica e prolixa para contar com dois elementos de cena dos mais interessantes: o diretor Ruy Guerra no papel principal - um pintor com crise de inspiração que começa a refletir se sua maior obra de arte no momento não seria a morte -, e a bela atriz Ana Abbott, que é modelo do pintor e desfila nua por quase todo o curta. Provavelmente Halm já sabia dessas fraquezas quando fez o filme, pois, em seu discurso antes da projeção, pediu paciência ao público.Irmãos Willians, de Ricardo Dantas, é uma animação de massa de modelar. Conta uma divertida história de um grupo de 12 irmãos que vão se reduzindo numericamente até se transformar numa dupla de pagode. Mas é um pouco irritante a precariedade técnica do desenho, que pode até ser proposital se relacionada com a história, mas que acaba por dar uma finalização exageradamente infantil. A Cilada com os 5 Morenos, de Luiz Borges, tem boa intenção: mostrar a resistência do rasqueado no Mato Grosso, onde a banda Os 5 Morenos cultiva essa música e dança regional com bastante alegria. Mas constrói-se em cima de um roteiro nulo, que nos faz pensar no porquê de Borges não ter feito um documentário.Felizmente, o público pôde ver Tepê, com Rogério Froes, Roberto Bomtempo e Murilo Grossi. É um filme cujo mote é a fé, contada por meio dos acontecimentos que ocorrem com um ateu numa noite chuvosa em Brasília. O roteiro é inteligente e engraçado, e a interpretação afiadíssimado veterano Froes é encantadora. Na terça-feira também teve início as sessões das Premières Gramadenses, com o documentário brasileiro Senta a Púa!, de Erik de Castro. Uma curiosa história do 1º Grupo de Aviação de Caça brasileiro, que teve participação fundamental na vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Depois foi exibido o longa colombiano La Vendedora De Rosas, de Victor Gaviria. Politicamente correto, o filme conta o injusto fim da vendedora de rosas Monica, uma menina de rua que vive entre a miséria de Medellín. Do ponto de vista da menina, acompanha-se o cotidiano bruto, marginal e rotineiro que o tráfico impôs à cidade, mas o filme também peca pela falta de um artifício narrativo eficiente que conte essas tristezas. Prostíbulo ambulante - O público teve um deleite com a projeção do peruano Pantaleón y Las Visitadoras, de Francisco J. Lombardi, segunda adaptação para o cinema da obra de Mario Vargas Llosa. O filme transfere com habilidade a estrutura narrativa dinâmica do livro e mantém a análise cotidiana mordaz e articulada (no caso a mira é o exército e a igreja), característica marcante na obra de Llosa.A vida de Panteléon Pantoja (Salvador del Solar), um capitão do exército peruano, é exemplar. Dono de uma capacidade administrativa ímpar e reconhecido pelos seus grandes desempenhos em campo de batalha, Pantoja leva uma vida regrada e feliz ao lado de sua esposa, até receber uma missão inusitada dos seus superiores. Devido à alta abstinência sexual dos soldados peruanos acampados na floresta amazônica, situação problemática principalmente pelos estupros que cometiam os oficiais na região, Pantoja é encarregado de organizar o Seviço das Visitadoras. Na verdade, um prostíbulo ambulante que vai de acampamento em acampamento aplacando a volúpia dos militares.A missão tem êxito e o apoio do exército é total. A popularidade é tanta, que o QG das prostitutas passa a ser chamado de "Pantolândia", em homenagem ao capitão. Mas tudo começa a ruir quando Pantoja apaixona-se por uma das prostitutas, a hipnotizante Olga Colombiana (Angie Cepeda), e quando um jornalista corrupto tenta chantageá-lo. A história é narrada de maneira divertídissima, principalmente quando contada por meio dos relatos constantes que Pantoja envia aos superiores. A fotografia que Teodoro Delgado faz do entardecer na Amazônia proporcionam belas imagens ao enredo.Francisco J. Lombardi, que já havia adaptado de Llosa La Ciudad y los Perros, de 1985, filmou Crime e Castigo de Dostoieviski em 95 (Sin Compación), e Bajo la Piel, de 96, firma-se como o melhor diretor peruano da atualidade. Convicto em filmar literatura, Lombardi prepara agora uma adaptação de Tinta Vermelha, de Alberto Fuguet.Infelizmente o diretor ainda não compareceu ao festival. Virá, talvez, para a noite de encerramento. Mas foi devidamente representado pelo produtor Alexander Katzowickz, que disse estar bastante feliz em ver queas pessoas gostaram do filme. "Mas não quero arriscar dizer que vai ganhar. Há filmes muito bons na festa", opinou modestamente. É esperar para saber.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.