Cinema negro no Brasil: diretor soma novo capítulo

São Paulo - Para Daniel Solá Santiago, filmar Família Alcântara não é só uma volta às origens cinematográficas, mas é principalmente um retorno às suas raízes negras. "Conhecê-los está sendo para mim desvender a história de minha própria família. Meu pai era de Minas Gerais, do município de Cristina, e, como a família Alcântara, foi também um grande contador de histórias. E muito daquilo que meu pai sempre me contou estou reconhecendo na vida dessa gente de João Monlevade", emociona-se.Para os realizadores o filme tem um significado especial. São raríssimas as produções brasileiras que enfocam o negro no Brasil, suas origens e sua arte. "Acho que o que houve de mais significativo nesses termos foi Abolição, de Zózimo Bulbul, que foi lançado ano passado, ainda que pouquíssimas pessoas conheçam. Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás, de Renato Barbieri, filme que inclusive ajudei a finalizar, é outro exemplo", lembra o diretor. Ele ainda destaca que o Brasil chegou a ter mais realizadores negros na década de 70 (Waldir Onofre, Celso Prudente, Ari Cândido) do que hoje. Para os dias atuais, além de Bulbul e Barbieri, Santiago destaca o trabalho de Joelzito Araújo, Agenor Alves, Billy Castilho e Antônio Pitanga."Acho que o documentário vem em boa hora. Não acho que existam movimentos nesse sentido, mas vejo que há pessoas e grupos cada vez mais preocupados com essa questão", opina Santiago. Marcelo Manzatti, do grupo Cachuera!, endossa que o documentário é uma ferramenta importante para a tomada de consciência: "é importante que os negros discutam essas questões, pois há muitos aspectos sociais a serem levantados. Há uma série de coisas que ainda inviabilizam a sociedade brasileira como um todo, por conta do racismo que existiu por tanto tempo". "E há ainda outro fator importante do documentário Família Alcântara, que é a revelação destes aspectos da cultura brasileira negra que não eram conhecidos e devem ser estudados", afirma Manzatti. O pesquisador ainda observa que "somente agora estão sendo produzidos e publicados os primeiros trabalhos sobre famílias escravas, porque antes não se achava que os escravos tinham condições de constituir família. Hoje, estão descobrindo o contrário, pois um casamento entre negros significava uma garantia de terra para plantar".Manzatti ainda lembra a questão da escravatura pós-abolição, resultado das dívidas imaginárias que os senhores forçavam os negros a compensar. A continuidade disso até a década de 50 também foi uma novidade histórica que, segundo o pesquisador, deve ser melhor analisada. "E, claro, há também a importância estética. Pois há toda uma beleza bastante especial nos apetrechos da congada, na indumentária, na música e na alegria da família, que deram um material muito bonito para o Daniel filmar", finaliza.

Agencia Estado,

23 de julho de 2000 | 16h43

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