Cinema nacional quer 200 filmes por ano até 2006

O mercado audiovisual iniciou o novo século com um comportamento que, há alguns anos, seria impensável: o cinema brasileiro tratando a televisão como aliada e não como uma usurpadora e a TV, por sua vez, observando o cinema com interesses comerciais e não como um meio disposto a saqueá-la. A convivência pacífica foi oficialmente lançada com a criação do Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Gedic), instituído, em setembro e por decreto, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. A fim de definir uma nova regulamentação para a indústria do cinema, o Gedic inclui, além de representação interministerial (Cultura, Fazenda, Desenvolvimento e Comunicações) e de secretarias (Geral, da Presidência, da Casa Civil e da Comunicação), seis representantes do cinema e da TV.O primeiro passo poderá ser dado a partir da retomada dos trabalhos no Congresso Nacional, em agosto, quando será proposta a criação da Agência Nacional de Cinema - por meio de medida provisória, se faltar tempo hábil.Ao mesmo tempo, deve ser instituído um fundo financeiro operado e administrado pelo BNDES ou outro agente financeiro estatal. A agência deverá ter uma configuração interministerial e terá função tanto de fomento como de regulação. O objetivo é a instalação de uma indústria auto-sustentável que consiga, até 2006, a produção de 200 títulos por ano, o que representaria 33% do mercado nacional. A previsão foi calculada a partir de números atuais, que apontam 28 filmes produzidos em 2000, representando 10% da renda total. "Não se pode mais pensar em uma indústria sólida sem a cooperação entre cinema e tevê", afirma Rodrigo Saturnino, gerente-geral da distribuidora Columbia Tri-Star Buena Vista do Brasil e um dos membros do Gedic. A parceria com a televisão, portanto, seria um dos caminhos naturais para a instituição de uma indústria sólida. E a necessidade é urgente, pois os números do cinema no Brasil são o reflexo de uma subtração. "O número de espectadores caiu, dos anos 70, de 225 milhões para 90 milhões atuais. Tivemos 4.500 salas nos anos 50, ante 1.600 agora. E, para piorar, os filmes nacionais só esporadicamente são exibidos pela TV e têm uma participação ínfima no mercado de vídeo e DVD", de acordo com o produtor Luíz Carlos Barreto, também membro do Gedic. "Assim, é preciso, de uma vez por todas, abandonar uma política de voluntarismo artesanal e atingir a fase industrial auto-sustentável." E, se no meio do caminho há uma pedra, ela não se chama mais televisão, no entender do produtor. "O mercado não se limita apenas às salas de cinema, que representam 25% da receita de um filme: temos de pensar na exibição por TV (aberta e por assinatura), satélite, DVD, vídeo e Internet, meio em que o céu é o limite." Se a necessidade da parceria cinema/TV é um consenso, a forma de torná-la viável, porém, ainda agita sentimentos suscetíveis - entre os afagos, há resquícios da fase de disputa. "Durante 30 anos, a TV aberta não se abriu para o cinema brasileiro. Não estou dizendo que o cinema nacional seja uma maravilha, mas não é pior do que a média do que a TV vem exibindo", declarou outro membro do Gedic, o cineasta Gustavo Dahl, espécie de porta-voz do grupo. A Globo é, por enquanto, a única emissora privada a criar um braço específico para o cinema, a Globo Filmes. O investimento foi reforçado depois do sucesso de O Auto da Compadecida, minissérie transformada em longa-metragem e uma das cinco maiores bilheterias brasileiras de 2000, com público superior a 2 milhões de espectadores. A série custou R$ 2 milhões e o filme, R$ 400 mil. A empresa já tem uma lista de projetos e prevê o investimento de R$ 50 milhões. O sucesso do Auto surpreendeu, engrossando o debate sobre a comunhão entre cinema e televisão. "Concordo que trouxe ganhos para o cinema brasileiro, mas isso não pode ser prática corrente", ressalva Luiz Carlos Barreto. "Uma coisa é realizar um filme, mostrá-lo nos cinemas e depois transformá-lo em minissérie. Ao agirmos ao contrário, estamos aceitando a transformação do cinema em um subproduto da TV, o que é absurdo." A empresa não poderá, porém, ser majoritária nos projetos, pois contraria a Lei do Audiovisual (8.685), que prevê que empresas culturais só podem se associar aos produtores independentes ate o limite de 49% do total de investimentos. Assim, a Globo Filmes terá participações que variam entre 20% e 25%. O plano, porém, sofre algumas resistências. Grupos de cineastas independentes, por exemplo, contestam a formação do Gedic, temendo ser excluídos das principais decisões. O governo respondeu que, enquanto a Agência Nacional de Cinema cuide da produção comercial, a Secretaria do Audiovisual incentive a experimental. "Não podemos esquecer que estamos traçando um plano estratégico a médio prazo, para daqui a cinco anos", comenta o cineasta Cacá Diegues. "Não estamos disputando uma corrida de 100 metros, mas uma maratona."

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