Cinema latino dá show em Gramado

O bonaerense Pablo José Meza, nascido em Buenos Aires, em 1974, ainda tem jeito de garoto, mas pensa como homem maduro e fez um dos melhores filmes latinos (o melhor?) do 33.º Festival de Gramado. Chama-se Buenos Aires 100 km e conta a história de cinco amigos que moram numa cidadezinhas que, para eles, é o fim do mundo, embora esteja apenas a 100 quilômetros da capital argentina. Meza fez um filme sobre a solidão da pré-adolescência.Seus garotos são cinco, a princípio unidos como os dedos da mão. Os cinco pode indicar uma referência aos irmãos de Rocco, na obra-prima de Luchino Visconti, mas Meza se admira da pergunta do repórter (se tem algo a ver) e responde que não. "No início tinha seis garotos, mas os reduzi para cinco por uma questão de economia dramática, para evitar que o filme ficasse mais longo." Há algo de Os Boas-Vidas, de Federico Fellini, e Os Incompreendidos, de François Truffaut, nesses garotos que vivem entre passeios de bicicleta e partidas de futebol, permanentemente confrontados com a família, a dureza da sobrevivência numa sociedade empobrecida e a mentira que domina as relações interpessoais na cidadezinha. Meza sofreu alguma influência desses filmes ou de Conta Comigo, de Rob Reiner? "Assisti a todos e também a outros que você não citou e, por certo, que devo ter absorvido alguma influência, mas não foi consciente. Meus garotos me ditaram os rumos do roteiro e da narrativa. Baseei-me no que vi e vivi. Mesmo que não seja autobiográfico, o filme tem muito de pessoal."Buenos Aires 100 Km parece reforçar uma tese da diretora Lucrecia Martel, de A Menina Santa, sobre a Argentina. No filme de Lucrecia, o abuso sexual não se concretiza e fica reduzido a um toque do homem mais velho na menina. Por meio desse toque, a diretora discute o que lhe parece a tragédia argentina - seus compatriotas tocam os problemas, ou melhor, os tangenciam, mas não se atracam no corpo-a-corpo para resolvê-los. Os garotos também se tocam, sem nenhuma conotação sexual, e numa cena belíssima - a da revelação de que um deles é adotado -, o pai, a mãe o garoto estabelecem todo um jogo com as mãos sem precisar dizer uma palavra. É como outro abraço partido (referência, também inconsciente, ao filme de Daniel Burman). "Entendo o que Lucrecia diz e concordo que há um pouco disso no filme. Não quis fazer assim, mas saiu dessa maneira porque na Argentina somos assim."Ele está cheio de expectativa de que seu filme seja comprado por algum distribuidor brasileiro. "Precisamos transpor as fronteiras culturais entre nossos países", diz. Buenos Aires 100 Km é um filme necessário. Propõe outra ´mirada´, um outro olhar sobre a adolescência e seus problemas. Não podemos nós, os latinos, ficar à mercê só das comédias teens de Hollywood. Os garotos brigam, separam-se, unem-se num jogo decisivo, mas a vitória não é garantia de nada. Estão condenados à separação, que parece a condição inevitável do crescimento. Os cinco atores jovens do filme são maravilhosos. O repórter fala em Fátima Toledo. Explica quem é ela, a grande preparadora de elenco de filmes brasileiros fundamentais, como Pixote, de Hector Babenco, e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Pablo José Meza teve a sua Fátima Toledo na Argentina? Pepe Salvia, o também jovem produtor do filme, é quem responde. "Mas não, hombre. Meza foi a Fátima dele." O diretor acrescenta - "As necessidades do cinema publicitário criaram na Argentina a figura do preparador de jovens para filmagens. Houve um que se ofereceu para trabalhar conosco, mas não quis. Uma das coisas que me motivaram a fazer o filme foi a possibilidade de trabalhar com os jovens. Não abriria mão de prepará-los e dirigi-los eu mesmo. O trabalho com os garotos de Cidade de Deus é excepcional, mas os meus também são ótimos, não é?", Meza pergunta. A resposta é sim e você deve torcer para ver Buenos Aires 100 Km. Atenção, distribuidores. Atenção, Leon Cakoff. A mostra de São Paulo só tem a ganhar com mais esse talento do novo cine argentino.

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