Cinema iraniano: entre a arte e a política

A arte pela arte, a oportunidade de tratar temas universais como a opressão, o martírio e a esperança a partir do microcosmo: quatro mulheres fugidas de um cárcere em Teerã, crianças orfãs lutando pela sobrevivência num vilarejo Curdo na fronteira entre Irã e Iraque, assim define-se o cinema iraniano. "Nossos filmes não são políticos. Fazemos arte", explicou o diretor de cinema iraniano Mahmoud Behrazinia, durante um debate no último sábado, na 24ª mostra de Cinema Internacional de São Paulo.À mesa com outros três diretores de seu país, Bherazinia, ator do filme Djomeh e diretor do documentário Close-up Kiarostami, sobre o autor de Gosto de Cereja, outro filme iraniano, reagia à expectativa do público reunido de que a noite de filmes persas revelaria denúncias de violações aos direitos humanos e repressão generalizada. Claros retratos da chamada realidade iraniana, mais do que um instantâneo político, os filmes apresentados na noite iraniana - ganhadores de prêmios em Veneza e Cannes - refletem o que é recorrente em todas as sociedades, dadas as suas peculiaridades.É o caso, por exemplo, de O Círculo, de Jafar Panahi. Eloqüente protesto a um antiquado estereótipo programado pelos Estados Unidos, de que o Irã é uma nação de maníacos religiosos, o diretor deste filme sobre quatro mulheres fugidas do cárcere passando um dia em relativa liberdade na capital iraniana - ganhador da palma de ouro no festival de Veneza - não tem agenda religiosa.Vivendo em situação de repressão extrema, a mulher retratada por Panahi usa véu negro e sofre dentro de uma sociedade onde a mulher não tem livre arbítrio sobre a sua pessoa, seu direito reprodutivo ou a sua sexualidade. Mas, como uma espécie de observador onisciente, na poética e humana realidade das quatro fugitivas, Panahi consegue demonstrar não só o seu drama, como também sua gentil solidariedade e companheirismo.Ciente de sua tragédia, uma prisioneira se prostitui para pagar a passagem de retorno da companheira às montanhas do Curdistão. Enquanto isso, outra mulher, que procura uma maneira de abortar uma gravidez indesejada, por acreditar ser impossível a maternidade na cadeia, se depara com a triste cena de uma criança abandonada pela mãe.Diante de tanto sofrimento, sem conexões óbvias entre as diferentes histórias das mulheres, Pahani indica que haverá finalmente segurança para elas nas paredes de concreto da prisão. Abrigadas da chuva que cai sobre a metrópole Teerã, de volta ao cárcere, as mulheres tem a oportunidade de sonhar com o que poderia ser a liberdade. Ali, fazem um mundo a parte, onde é possível tratarem-se bem.Identidade cultural - A sensação de esperança é dominante também no filme de Bahman Ghobadi, Tempo de Embebedar Cavalos, sobre uma família de crianças orfãs na região do Curdistão, fronteiriça com o Iraque. Em fuga constante do pieguismo, o curdo Ghobadi, que dividiu com Djomeh o prêmio Caméra D´Or para diretores iniciantes em Cannes, utiliza a belíssima e dura paisagem do Curdistão para demonstrar lealdade, companheirismo e amor entre as crianças de uma família."Gosto de emocionar. Mas quero também mostrar com esse filme que há uma identidade e cultura curdas. Não se fala sobre o Curdistão e acredito no cinema como uma forma de divulgá-lo ao mundo", disse Ghobadi durante o debate na mostra. Mesmo sem saber do massacre dos curdos pelos governos tanto de Saddam Hussein como do regime dos aiatolás, é possível entender que a população naquela parte do mundo vive a constante ameaça das minas terrestres, do ambiente inóspito das montanhas ao norte do cáucaso e - no caso dos personagens principais do filme - a ausência de adultos que possam ajudar a superar as armadilhas do destino.Mas mais que um filme sobre o Curdistão, Tempo de Embebedar Cavalos é sobre a necessidade que tem o ser humano de acreditar que eventualmente, através de trabalho e esforço é possível curar e viver melhor. Longe de ser um mero retrato da pobreza do terceiro mundo, amadurecido, o cinema iraniano é de fato arte, em sua beleza, simplicidade e respeito à capacidade de análise e interpretação do público.

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