Loic Venance/Agence France-Presse — Getty Images
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Diretores iranianos criticam censura do governo à arte

Mohammad Rasoulof, cujo novo filme ganhou o prêmio máximo no Festival de Berlim, é um dos vários cineastas que se tornaram mais francos quando o Irã reprime a expressão artística

Sara Aridi, The New York Times

11 de março de 2020 | 06h00

A estreia de There Is No Evil (Não há mal, em tradução livre), o novo drama do célebre diretor iraniano Mohammad Rasoulof, no Festival de Cinema de Berlim, em 29 de fevereiro, foi um momento agridoce para seu criador. Falando antes de o filme ganhar o Urso de Ouro, principal prêmio do festival, Rasoulof explicou que não poderia comparecer à première porque fora proibido de deixar o Irã e está preso há um ano, resultado da reação do governo a Lerd – Um Homem Íntegro, seu filme anterior, uma crítica aguda à liderança clerical do país.

Punições como as de Rasoulof são muito comuns no cinema iraniano contemporâneo, um celeiro próspero e respeitado em todo o mundo. Apesar das medidas repressivas do governo, ele e outros diretores vêm se sentindo cada vez mais encorajados a falar o que pensam, em cartas formais, nas premiações, nas mídias sociais e nos filmes em si.

Seus protestos se erguem contra um pano de fundo de crescente tensão no Irã. A desconfiança ficou mais alta em janeiro, quando o comandante da Guarda Revolucionária do Irã, o major-general Qassim Suleimani, foi morto por um ataque de drones americanos. Em seguida, ocorreu o ataque acidental das forças armadas iranianas a um avião ucraniano, o qual matou 176 pessoas. Agora, informações conflitantes sobre a crise do coronavírus questionam a credibilidade do governo.

O período mais recente de inquietação remonta a novembro, quando centenas de manifestantes foram mortos durante protestos contra o preço da gasolina. No mesmo mês, mais de 200 profissionais do cinema iraniano, entre eles o indicado ao Oscar Asghar Farhadi (A Separação), assinaram uma carta aberta condenando a censura do estado a The Paternal House (A casa paterna), drama sobre um assassinato por honra que foi banido menos de uma semana antes de entrar em cartaz no Irã.

Os cineastas vêm se manifestando desde então. No Prêmio Iraniano dos Críticos de Cinema, em 30 de janeiro, o ator e diretor Homayoun Ghanizadeh dedicou seu prêmio a um engenheiro morto durante os protestos de novembro. Rakhshan Bani Etemad, a cineasta mais proeminente do país, foi detida por postar uma convocação para uma vigília nacional pelas vítimas da queda do avião. Ela ficou presa por algumas horas e retirou sua declaração.

O discurso de Ghanizadeh – feito em um evento público, com autoridades do governo na plateia – foi “muitíssimo arriscado”, disse Jasmin Ramsey, do Centro de Direitos Humanos no Irã, uma organização sem fins lucrativos de Nova York. “Ele correu todos os tipos de perigo”.

Em fevereiro, muitos atores e diretores boicotaram o prestigiado Festival de Cinema Fajr, patrocinado pelo governo, em protesto contra a maneira como o país lidou com o incidente do avião. “Os cineastas estão tentando lidar com o trauma coletivo que todos sofreram”, disse Ramsey. “Agora a sociedade inteira está meio que em convulsão”.

Alguns cineastas, como Bahman Ghobadi (Ninguém sabe dos gatos persas), diretor iraniano-curdo radicado em Istambul, optaram por deixar o país para trabalhar. Mas muitos artistas menos conhecidos não têm meios para emigrar, nem status suficiente para gerar atenção internacional quando o governo os submete a punições severas.

Hossein Rajabian, por exemplo, ficou em confinamento solitário por dois meses por causa de seu filme sobre o direito das mulheres iranianas ao divórcio. Mais tarde, ele foi condenado por três acusações, entre elas a divulgação de propaganda contra o Estado, e preso por quase três anos.

O filme nunca foi exibido no Irã: Rajabian subiu o arquivo no YouTube antes de ser preso, mas o vídeo foi removido a pedido do Conselho Iraniano de Cinema. Recentemente, ele concluiu um novo trabalho, que planeja lançar online pela BBC Persia, para evitar a censura. Rajabian disse que o filme expressa a desilusão dos jovens iranianos. “A geração passada prometeu nos trazer liberdade” após a Revolução Islâmica de 1979, disse ele. “Mas o que temos, na verdade, é o isolamento total do Irã”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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