Cinema dos EUA pede voz na política de FHC

Um projeto do governo brasileiro está incomodando profundamente os sete maiores estúdios de cinema do mundo: Columbia, MGM, Universal, Warner, Buena Vista, Paramount e Fox. E incomodando tanto que a entidade que os representa, a poderosa Motion Pictures Association (MPA), conhecida por atuar com sutileza, nos bastidores, desta vez está aparecendo publicamente para protestar contra as intenções do Brasil de regulamentar a indústria cinematográfica em território nacional.No mais recente capítulo dessa disputa, que envolve um mercado bilionário e interesses de Estado, o vice-presidente da MPA, Steve Solot, distribuiu uma carta (leia na íntegra) relacionando os motivos pelos quais discorda das proposta do governo brasileiro. O documento sugere que a nova regulamentação do setor "deveria ter menos ênfase em simples impostos e contribuições obrigatórias" e coloca a MPA como responsável pelo aumento de 7% no número de espectadores do cinema nacional.A nova regulamentação da indústria cinematográfica brasileira está sendo preparada pelo Gedic, o Grupo Executivo para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, desde o ano passado. O relatório final do projeto de lei que será apresentado ao presidente Fernando Henrique Cardoso deve ficar pronto ainda este mês. O problema, segundo Solot (leia entrevista), é justamente o fato de o conteúdo deste projeto não constar de nenhum documento oficial. O representante da MPA reclama à entidade os direitos de sugerir e interferir no andamento das discussões, com o respaldo de contribuir para o renascimento do cinema nacional por meio de co-produções como as dos filmes Bossa Nova e Eu Tu Eles.Gustavo Dahl (leia entrevista), um dos principais idealizadores do projeto que deu início às discussões do Gedic e também membro do grupo, rebate: "Eu entendo que o senhor Solot se manifeste, mas a conveniência estratégica de se manter uma reserva é uma decisão. Não compete a nós do Gedic tecer comentários. Isso é impertinente." E argumenta que, na maioria das co-produções que as empresas associadas à MPA fizeram no Brasil, o dinheiro veio por meio de incentivos fiscais do governo, ou seja, dinheiro público.Steve Solot argumenta que os EUA têm muito interesse em fomentar o cinema brasileiro e que a MPA deve ser consultada antes da elaboração e até da aprovação do projeto. Gustavo Dahl diz que, na proposta do Gedic, "não há nenhuma incompatibilidade frontal com o cinema norte-americano". Entre as idéias que serão apresentadas pelo Gedic estão a criação da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual (Ancinav) e a formação de um fundo para financiar projetos cinematográficos. Os recursos do fundo devem vir da taxação sobre a comercialização de todos os filmes exibidos no Brasil, no cinema e na TV, aberta e paga.Outra proposta do grupo é a criação de uma distribuidora nacional que fará papel semelhante ao da Rio Filmes, como encarregada de negociar as obras nacionais no País e no mundo. O projeto de lei que deve regulamentar a criação da Ancinav não vai extinguir a Lei do Audiovisual, pelo menos até 2006, ano em que o Gedic estima que o projeto estará em pleno vigor, com a indústria cinematográfica brasileira produzindo 200 filmes por ano.

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