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Cinema demonstrou vigor em ano de desesperança na sociedade

Temas pungentes foram abordados pelos filmes lá fora e aqui no Brasil

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 06h00

A gafe histórica na entrega do Oscar (o musical La La Land foi proclamado vencedor quando Moonlight - sob a Luz do Luar era de fato o ganhador da principal estatueta) prenunciava um ano confuso para Hollywood. Mas quem haveria de adivinhar que acusações de estupro e assédio acabariam com as carreiras de figurões como Harvey Weinstein e Kevin Spacey e, por contágio, abalariam estruturas de dominação mantidas em silêncio na intimidade da indústria? Pois foi o que houve, e as suas consequências são ainda imprevistas e imprevisíveis para o futuro da indústria do cinema.

De qualquer forma, exceção feita à confusão do prêmio, o Oscar 2017 ofereceu ao mundo uma amostra de força do cinema negro nos Estados Unidos. Depois do “Oscar so White” de 2016, os negros brilharam em 2017, como diretores, atores, atrizes, personagens. Sem qualquer paternalismo reparatório, títulos como o próprio Moonlight, Cercas (Um Limite entre Nós), OJ: Made in America são obras marcantes e merecedoras de prêmios, boas críticas e público. 

Um filhote dessa excelência do cinema black em 2017 é Corra!, de Jordan Peele, que reativa a crítica ao racismo usando as armas do gênero terror. A história: um rapaz negro é levado por sua namorada branca para conhecer a família e não sabe o que o aguarda. Tenso, bem filmado, com toques mesclados de terror e humor, tem todos os ingredientes para agradar a rapaziada em geral. Deve emplacar no Oscar 2018. 

Em tom mais contido, mas não menos contundente, Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow, em ritmo trepidante de quase documentário, recorda um caso real de crime racial nos Estados Unidos. 

Dos EUA, o maior destaque de 2018, a meu ver, é Paterson, de Jim Jarmusch, com Adam Driver fazendo o motorista-poeta numa cidadezinha que dá título ao filme. Emoção refinada, toque luminoso e discreto para uma época difícil. 

Em termos de cinemão, Dunkirk, de Christopher Nolan, parece imbatível. Em desenho visual lisérgico, recria um dos episódios mais emocionantes da 2ª Guerra Mundial: a retirada de soldados ingleses e franceses da praia de Dunquerque, onde estavam bloqueadas pelas forças ocupantes nazistas. Pode-se dizer que Dunkirk é uma reinvenção do filme de guerra. 

Outros dos melhores filmes estrangeiros de 2017 vieram do Oriente. Por exemplo, o magnífico Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo, da Coreia do Sul. Uma atriz (Kim Min-Hee) tem a vida íntima exposta após relacionamento com um diretor de cinema. Em A Mulher que se Foi, de Lav Diaz, das Filipinas, a personagem passa 30 anos presa injustamente. Libertada, tenta refazer a vida interrompida e vai em busca do filho. Reencontra seu país devastado pela violência e pela corrupção. 

A Europa mandou sua habitual cota de cinema de qualidade. Dos irmãos belgas Dardenne veio A Garota Desconhecida, com Adèle Haenel interpretando uma médica com problemas de consciência. O britânico Ken Loach, com Eu, Daniel Blake, põe o dedo na ferida das questões previdenciárias de seu país. Seu tema continua o de sempre: a dignidade dos vencidos pelo mundo capitalista. 

A maior surpresa europeia veio da Hungria, com o inusitado Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi, um dos filmes mais originais do ano. Um homem e uma mulher tentam se aproximar. Mas ela é travada e ele, traumatizado. Até descobrirem que, por algum motivo, sonham os mesmos sonhos. Um leve surrealismo poético tira o filme do naturalismo. Que retorna a ele de maneira plena no brutal lugar de trabalho da dupla - um higienizado matadouro, metáfora de uma sociedade que mata com delicadeza. 

Também inusitado é o alemão Toni Erdmann, história do relacionamento entre pai e filha, tema pesado matizado pela comédia. O pai é um excêntrico; a filha, uma executiva ambiciosa, estressada e autocentrada. A fresta nessa couraça será aberta pelo recurso ao absurdo. 

O cinema latino, de difícil exposição no Brasil, este ano viu-se representado por ótimas obras: o cubano Últimos Dias em Havana, de Fernando Perez, o argentino Eva não Dorme, de Pablo Agüero, o venezuelano El Amparo, de Rober Calzadilla, e, sobretudo, o chileno Uma Mulher Fantástica. Este último, dirigido por Sebastián Lelio, fala do caso de amor entre um empresário e uma pessoa transgênero, interpretada por uma atriz trans (Daniela Vega). 

Quanto ao cinema brasileiro, deve-se registrar o fato quase inexplicável de ter passado o ano imune à crise econômica e política que devastou outros setores do país. Produziu cerca de 150 longas-metragens, o que não é nada mal como número. Melhor: há bastante qualidade a ser colhida nessa produção expressiva. 

Diria que nela há um patamar alto formado por um grupo de filmes bastante diferentes entre si, mas que se nivelam pela força estética e de conteúdo: Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa, No Intenso Agora, de João Moreira Salles, Era o Hotel Cambridge, de Lili Caffé, e Martírio, de Vincent Carelli. Pode-se a eles juntar Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano. 

De que “tratam” esses filmes? Da rememoração da saga de um amigo que perdeu a vida ao escalar uma montanha na África; da alegria da vida, do êxtase detectável tanto em filmagens domésticas de uma viagem à China quando nas febris manifestações estudantis de Maio de 68, na França; a questão da moradia urbana, vista por seus protagonistas, mas sob forma ficcional; o genocídio das populações indígenas brasileiras e sua relação com a política e a economia; as relações humanas no mundo do trabalho, vistas sob uma perspectiva gay. São filmes fortes, que dignificam qualquer cinematografia. 

Mas a participação brasileira no mercado de “qualidade” não ficou por aí. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, e As Duas Irenes, de Fábio Meira, recolocaram em foco a questão feminina, num ano em que a ação feminista tomou lugar privilegiado na pauta brasileira de debate ao lado das lutas antirracistas e pela afirmação LGBT. Eu acrescentaria nesse pacote a luta pela preservação não apenas da civilização e da cultura indígenas, mas de sua sobrevivência física mesma. É justamente do que trata Martírio, de Vincent Carelli. 

A questão racial foi debatida com intensidade ímpar a partir da exibição de Vazante, longa de Daniela Thomas, no Festival de Brasília. Algumas pessoas se insurgiram contra a maneira como escravos foram representados nessa história ambientada na Minas Gerais do século 18. Houve repique desse debate, pela mídia, impressa e TV, quando o filme chegou ao circuito comercial. 

A questão é ampla: refere-se à maneira como se representam eventos e personagens históricos. Sabemos que não é neutra e expressa um ponto de vista do diretor sobre o tema (quando ele é suficientemente lúcido para ter esse ponto de vista). Em todo caso, a estridência da discussão pode repercutir mais adiante, quando filmes similares surgirem, se é que virão depois de tudo o que aconteceu. 

De qualquer forma, a virulência do debate, o engajamento dos debatedores, a convicção de que a luta se trava duramente no plano do simbólico, mostram uma vivacidade inesperada da cultura brasileira neste ano cinematográfico. Em 2017, o cinema brasileiro andou na contramão do marasmo e da desesperança do resto da sociedade. 

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