Cinema de Walter Hugo Khouri, agora em DVD

Agora que não é mais feio admirar ocinema de Walter Hugo Khouri, agora que a morte - ocorrida em 27de junho deste ano - fez dele, definitivamente, um autor cult,até os desafetos de ontem talvez queiram homenagear o grandediretor comprando a caixa que a CineMagia colocou nas locadorase lojas especializadas, com três DVDs. Khouri começou a fazercinema em 1953 (com O Gigante de Pedra). Desenvolveu uma dasobras mais coerentes do cinema brasileiro, mas se fosse precisoselecionar uma só fase de sua carreira teria de ser aquela, dosanos 1960, coberta pelos filmes que saem em discos digitaisimpecáveis. Noite Vazia é de 1964, Corpo Ardente, de 1966, e AsAmorosas, de 1968. Embora jovem - nasceu em 1929, portanto,tinha 35 anos quando fez Noite Vazia -, Khouri já haviadirigido um punhado de filmes que fizeram dele, desde o começo,uma personalidade polêmica. No Brasil dos anos 1950 e 60,exigia-se dos autores que fizessem do cinema um ato político, depreferência revolucionário. O cinema que valia era herdeiro doneo-realismo, tinha de estar alinhado com as grandes questõespolíticas e sociais. E aí vinha aquele Khouri, com fasesinspiradas primeiro em Ingmar Bergman, depois em MichelangeloAntonioni, querendo falar de sexo e de problemas existenciaisnum País onde a estética - era a palavra de ordem - tinha de serda fome para colocar a cara do Brasil na tela. Foi o material dramático que Khouri, embasado em suaformação filosófica e literária, escolheu trabalhar. Há um quêde artificialismo cênico nos filmes anteriores a Noite Vazia,mesmo nos mais interessantes, como Estranho Encontro e NaGarganta do Diabo. A Ilha é absurdamente errado, comproblemas de roteiro que a realização não soluciona. Foi umfilme que deu muito dinheiro a Khouri, mas o diretor não gostavadele e isso apesar do envolvimento pessoal com a história, quepossuía elementos autobiográficos de sua família. É com NoiteVazia que ele acha seu tom, o seu estilo. É uma maneira defilmar o sexo, impregnando de erotismo relatos que vão além dosocial, no rumo de uma investigação sobre o comportamento humanonas camadas mais favorecidas da sociedade brasileira. As pessoas no cinema de Khouri, moram bem, comem bem, vestem-se bem, masvivem mal, devoradas pelos sentimentos de solidão,incomunicabilidade e alienação. Paradoxo - Talvez, entre todos os filmes que tiveram SãoPaulo como cenário e até como tema, sejam Noite Vazia e SãoPaulo S.A., de Luiz Sérgio Person, os dois maiores. Khouri,descendente de italianos e libaneses, disse certa vez que suaSão Paulo era particular. Era a USP, a Avenida São Luiz e tambémo Itatiaia, que incendiava suas fantasias da busca de uma ascesepor meio do sexo. É o paradoxo do cinema de Khouri. Um dospersonagens que sai com as prostitutas de Noite Vazia chama-seMarcelo. Todos os personagens se chamarão Marcelo, a partir deAs Amorosas. Todos vão buscar a subida por meio da queda. Asublimação, em Khouri, tem de ser buscada por meio da degradaçãosexual essa é a tragédia de Marcelo. Vários atores revezaram-se no papel - Gabriele Tinti,Paulo José, Roberto Maia, Tarcísio Meira, Ben Gazzara e AntônioFagundes. A cara podia mudar, mas a angústia era sempre a mesma.Marcelo, em alguns filmes, leva a obsessão sexual ao limite doincesto, desejando a própria filha, Berenice. Em PaixãoPerdida, de 1999, que terminou sendo o último filme do diretor,destrói o filho. O garoto, traumatizado pela morte da mãe, viveuma existência vegetativa. Uma enfermeira inicia o processo dedevolvê-lo à vida. Marcelo corta bruscamente o processo parapossuir a mulher. Condena o garoto ao sono da morte. Os três filmes são os melhores de Khouri. Se ele foimesmo um grande diretor (e até fazedor) de estrelas, nunca elasforam melhores. Norma Bengell e Odete Lara como as prostitutasde Noite Vazia, Barbara Laage como a burguesa insatisfeita eDina Sfat como a caseira do sítio na serra de Corpo Ardente,Anecy Rocha, Lilian Lemmertz e muitas outras como as amorosasque cercam o Marcelo de Paulo José. Em Corpo Ardente, a mulheroprimida pela metrópole sobe a serra para uma impossívelidentificação com o cavalo, como símbolo da vitalidade perdida.Em As Amorosas, Khouri de alguma forma respondia às acusaçõesde alienado formuladas pela esquerda cine-novista. Marcelo é umestudante e a questão social, em plena ditadura, está presente otempo todo. A caixa, primeira de uma série, é primorosa. CustaR$ 90 e soma aos filmes um monte de extras. Eles vão desde fotosexclusivas, garimpadas no arquivo do diretor, até depoimentosapaixonados da mulher, Nadir Aparecida, do filho, Wilfred, e doamigo Sérgio Martinelli. Nadir fala do homem e do artista, dasua admiração e do seu amor por ambos. Khouri podia sofrer comas críticas que considerava injustas, mas isso não o desviou ummilímetro do caminho que traçou para si mesmo. E Nadir o amouainda mais, por isso.

Agencia Estado,

11 de novembro de 2003 | 16h14

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