Cinema de Stanley Kubrick sai em DVD

Não foi mera coincidência. A Warner colocou A.I. - Inteligência Artificial em exibição em300 salas de todo o País e aproveitou a data da estréia (7 desetembro) para também lançar, por meio do seu segmento de DVD evídeo, a Coleção Stanley Kubrick. A.I. associa o nome deKubrick ao de Steven Spielberg. É o filme que o gênio de 2001,uma Odisséia no Espaço queria realizar, mas terminou sendofeito pelo diretor de ET, o Extraterrestre. A.I. éessencialmente Spielberg, com sua marca registrada, à base depieguice e muitos efeitos. Os críticos reclamam, mas a fórmulafunciona: A.I. fez 500 mil espectadores no primeiro fim desemana, a terceira maior abertura da Warner no País. Naquarta-feira, fechou 1,06 milhão de espectadores. Bom para aempresa (e para Spielberg). Nada melhor que a Coleção StanleyKubrick, porém, para nos lembrar quem era o grande autor morto,em 1999.São dois pacotes com quatro DVDs cada: Lolita,Nascido para Matar, 2001 e O Iluminado compõem oprimeiro pacote; Barry Lindon, De Olhos bem Fechados,Laranja Mecânica e o documentário Stanley Kubrick -Imagens de uma Vida compõem o segundo. Todos os filmes foramremasterizados digitalmente e os discos incluem trailer decinema. Só De Olhos bem Fechados traz as notas de produção eelenco que seriam desejáveis na coleção inteira. Todos tambémpoderão ser adquiridos isoladamente, menos o que traz odocumentário de Jan Harlan sobre seu cunhado. Harlan é irmão deChristine, a mulher (pintora) de Kubrick. E os filmesselecionados são, basicamente, os da associação do diretor com aWarner, empresa para a qual ele trabalhava, há vários anos, emtroca de liberdade total. Kubrick tinha um contrato que nãoadmitia nenhuma interferência do estúdio em seu trabalho.Entregava o filme que queria, pronto, e ainda controlava olançamento, estabelecendo o tipo de publicidade a serempregado.De onde vinha essa situação excepcional que eledesfrutava na indústria? Do reconhecimento do seu gênio, maisque do sucesso comercial de seus filmes. Kubrick não eraSpielberg, em termos de retorno de bilheteria. Em compensação,esteve perto de realizar seu projeto megalomaníaco: ele queriafazer só obras-primas, os filmes definitivos de diversosgêneros. E, se pudesse, prescindiria de colaboradores, fazendoseus filmes sozinho. Quase fez: em Fear and Desire, oprimeiro longa, de 1953, foi produtor, diretor, montador, operoua câmera e chegou a controlar pessoalmente a tiragem dascópias.Os pacotes de DVDs da Warner ignoram os filmes dos anos50, clássicos noir como O Grande Golpe ou de guerra, comoGlória Feita de Sangue. Também falta o épico "Spartacus",no qual Kubrick substituiu o diretor Anthony Mann e do qual nãogostava muito, por achar que não teria desfrutado a liberdadeque considerava necessária. Também fica de fora DoutorFantástico, que acaba de sair num DVD cheio de extras pelaColumbia. Pode-se lamentar as ausências, mas os filmes queintegram a coleção são prodigiosos. Nem todos: a Lolita deKubrick sempre foi discutida. Ficou melhor em comparação com aadaptação que Adrian Lyne fez do romance de Vladmir Nabokov. Maso que dizer de 2001, de Laranja Mecânica e BarryLindon? De O Iluminado? Levando ao extremo seu domínio datécnica, Kubrick, nas palavras de Jean Tulard em seuDicionário de Cinema, parece querer mergulhar o espectador,graças a seu extraordinário virtuosismo, num estado de hipnose.2001 exigiu vários anos de preparação e filmagem.Mas desde que bateu pela primeira vez na tela, em 1968, a aurorado homem, com aquele vertiginoso corte que transforma o osso,que o macaco usa como arma, na nave espacial que evolui ao somdo Danúbio Azul, a ficção científica no cinema nunca maisfoi a mesma. Kubrick deu inusitada profundidade a um gênero queo cinema tratava quase sempre como aventura. E se é verdade quedepois George Lucas devolveu a ficção científica à aventura (nasérie Guerra nas Estrelas), até ele teve de beber na fontedas pesquisas estéticas do grande Kubrick.Logo em seguida veio Laranja Mecânica, que o diretoradaptou do romance de Anthony Burgess, sobre jovens que soltamsua violência nas ruas de Londres, enquanto, nos laboratórios,cientistas trabalham para libertar o cérebro de suas tendênciasagressivas. Vieram depois Barry Lindon, com sua suntuosidadecênica insuperável, O Iluminado, em que Kubrick elevou aliteratura vulgar de Stephen King à condição de grande arte, eNascido para Matar. Por melhor que seja a visão kubrickianada Guerra do Vietnã, chegou tarde demais, depois de váriosfilmes dedicados ao assunto, para provocar o impacto quemerecia. De Olhos bem Fechados também foi considerado poralguns críticos um fecho de carreira insatisfatório para oautor. São os mesmos que afirmam, irresponsavelmente - mas opapel não aceita tudo? -, que A.I. honra mais a memória doartista genial.Nos grandes filmes da fase final de sua carreira,Kubrick realmente queria mergulhar o público num estado dehipnose. Há um tema do olho, essencial em seu cinema. O olho deHal-9000, que tudo vê em 2001, o de Alex, que não pode sefechar em Laranja Mecânica. Mas esse olho que percorre eadquire múltiplos significados na obra kubrickiana é apenas umdos faróis que iluminam seu gênio. O outro é a palavra -enlouquecida no Doutor Fantástico, ela trai Hal e expressa afúria homicida do protagonista de O Iluminado.Vale insistir nesse aspecto. O cinema de Kubrick propõea glacial exposição do fim do mundo pela dissolução da palavra,como único elo que une e organiza os homens. Daí seu friocerebralismo, que Spielberg dilui em sentimentalismo emA.I.. Um filme incompreendido como Nascido para Mataradquire outro significado se for pensado à luz da retórica dospalavrões com que o sargento humilha seus recrutas até que elesestejam prontos a entender o mergulho no coração das trevas que,para o diretor, era toda guerra.Coleção Stanley Kubrick. Dois pacotes de DVDs comquatro discos cada um, contendo: Nascido para Matar, O Iluminado Lolita e 2001; Barry Lindon, Laranja Mecânica, De Olhos bemFechados e o documentário Uma Vida em Imagens. DistribuiçãoWarner. Toda a coleção: R$ 239. Cada DVD: R$ 38,50.

Agencia Estado,

20 de setembro de 2001 | 15h35

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