Cinema de Stanley Kubrick é tema de mostra em SP

Não é, ao contrário do que anunciao próprio Museu de Arte Moderna de São Paulo, a retrospectiva daobra completa de Stanley Kubrick, o grande diretor americano quemorreu em Londres, em 1999, aos 70 anos. Kubrick foi àInglaterra para filmar Lolita. Resolveu manter-se afastadode Hollywood. Criou seu bunker do outro lado do Atlântico. Lápermaneceu até a morte, às vésperas da estréia de De Olhos bemFechados, que terminou sendo seu último filme. Faltam, nociclo que começa domingo e prossegue até o dia 6 de agosto,sempre aos sábados e domingos, os filmes do começo de suacarreira: Fear and Desire, A Morte Passou por Perto eO Grande Golpe. O segundo e o terceiro já revelamexcepcional virtuosismo técnico (e cênico) e o último merece areputação que ostenta, de ser um dos pontos altos da tendênciachamada de filme noir. Mas o Kubrick que o MAM mostra a partirde domingo é "quase" completo.Começa com Glória Feita de Sangue, com sua cortemarcial que é um dos marcos do cinema de guerra e prossegue,também amanhã, com outro filme interpretado peloastro Kirk Douglas, Spartacus. O épico sobre o escravo quedesafiou o poder da Roma imperial é um dos superespetáculos maisbelos do cinema, numa época em que Hollywood, para enfrentar aconcorrência da televisão, investia em filmes grandiosos. Opróprio Kubrick não tinha muito apreço por Spartacus,achando que a máquina do cinemão não lhe permitira fazer o filmeque queria. Deixou isso claro em Lolita, na cena em queQuilt (Peter Sellers) diz: "Meu nome é Spartacus, quero a minhaliberdade."O espectador, que nunca teve esse Spartacus ideal nacabeça, só pode impressionar-se com as cenas de batalha, as dotreinamento dos gladiadores e, principalmente, com o tripédramático que o diretor, a partir do roteiro de Dalton Trumbo,arma em torno dos principais personagens em cena. São elesCrasso e Graco, interpretados por Laurence Olivier e CharlesLaughton, além do próprio Spartacus, naturalmente. Kubrick osutiliza para desenvolver uma reflexão muito forte sobre adissolução da palavra como único elo que une os homens. É ogrande tema do seu cinema, que vai voltar nas grandesobras-primas: a dificuldade para se comunicar por meio dotelefone vermelho em Doutor Fantástico, a palavra enguiçadado escritor Jack Nicholson em O Iluminado, a retóricaperversa do instrutor de Nascido para Matar.A esse tema, superpõe-se o do olhar. Kubrick crioufilmes hipnóticos, até como forma de discutir o cinema. Há umolho que tudo vê, o de Hal-9000, em 2001 - Uma Odisséia noEspaço. Há outro, o de Alex, que não pode fechar-se emLaranja Mecânica. A decadente aristocracia inglesa do século18 vira representação para o olhar crítico do espectador emBarry Lyndon e a traição imaginada, em De Olhos bemFechados, é algo tão doloroso e insuportável que desestabilizaa união dos personagens de Tom Cruise e Nicole Kidman. O cicloainda é enriquecido pelo documentário Stanley Kubrick: A Lifein Pictures, realizado pelo cunhado de Kubrick, Jan Harlan,após a morte do grande artista, com base em material fornecidopor sua irmã Christine, a viúva do diretor. E não esquece A.I.- Inteligência Artificial, que Steven Spielberg realizou combase na história que Kubrick queria contar.Forma visionária - É a versão corrente que o próprioKubrick chamou Spielberg e lhe pediu que fizesse o filme. Odiretor de E.T. submeteu o frio cerebralismo kubrickiano àchantagem das lágrimas. Kubrick, é bom lembrar, nunca conseguiudesenvolver um roteiro de A.I. que o satisfizessecompletamente, com toda a fabulação mítica (é a versão high techda história de Pinóquio) e a riqueza psicanalítica (na situaçãoedipiana do pequeno herói) que queria imprimir à história deGeorge Arliss. Mas o principal entrave foi que Kubrick nãoachava que o papel do garoto devesse ser feito por um ator.Chegou a pedir à Mitsubishi que criasse um protótipo de robô.Pode-se imaginar, portanto, que se ele não tivesse feito avançaro cinema com o seu A.I., teria feito, com certeza, avançar aciência. Aliás, muita coisa que o cineasta apresentou de formavisionária em sua odisséia no espaço terminou estimulando oscientistas a criar todo um arsenal tecnológico que hoje integrao cotidiano das pessoas.Sobre o homem Stanley Kubrick já se disse tudo e muitacoisa não é lisonjeira. Obsessivo, neurótico, despótico com seuscolaboradores, dizem até que ele não gostava de tomar banho.Seria um erro tentar avaliar o artista pelo que se conta sobre ohomem. Foi um visionário. Sem 2001 talvez não houvesse THX1138 e sem aquela ficção científica George Lucas talvez nãotivesse se lançado à guerra nas estrelas, que mudou a face docinema, tanto pelo desenvolvimento acelerado dos efeitosespeciais quanto pelo próprio conceito do filme como elo numacadeia de consumo (e marketing). Só que Lucas e seus (d)efeitosinfantilizaram o cinema - por mais que vários episódios da sérieGuerra nas Estrelas, incluindo o inédito O Ataque dosClones, sejam divertidos. Kubrick nunca abriu mão de fazer seucinema adulto.Sempre acreditou que as boas histórias são importantes,mas não decisivas. A de 2001, por exemplo, não possui umaação efetiva. Kubrick dizia que, no filme, a interpretação vemdo teatro, o roteiro da literatura e a construção da cena dafotografia, com a diferença de que é animada. Cinema, para ele,era montagem, ou seja, a maneira certa de contar a boa história.Num outro contexto, com outras características, mas nãonecessariamente outros objetivos, o russo Serguei M. Eisensteintambém achava isso. Como discordar? O cinema é a arte damontagem, que consiste em ordenar imagens no inconsciente dopúblico, de forma a estimular uma reflexão sobre o homem nomundo (e o mundo da arte). Isso você poderá fazer mais uma vez,(re)vendo os clássicos de Kubrick no MAM.Cinemam - Stanley Kubrick. Domingo, às 13h30, GlóriaFeita de Sangue/57, dur. 87 min., com Kirk Douglas; às 16 horas Spartacus/60, dur. 183 min., com Kirk Douglas. Sábado edomingo. Grátis. MAM - Auditório Lina Bo Bardi. Avenida PedroÁlvares Cabral, s/n.º, portão 3 do Parque do Ibirapuera, em SãoPaulo, tel. 5549-9688. Até 4/8. Terça, às 12 horas, GlóriaFeita de Sangue; e, às 17 horas, Spartacus. Grátis. PUC -Auditório Banespa. Rua Monte Alegre, 984, tel. 3670-8265. Até 30/7.

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