Cinema de Kurosawa chega ao DVD

Voltar a Kurosawa é, no mínimo, uma lição de cinema, além de ser um grande prazer para o cinéfilo. Esse cinema rigoroso, tão poético quanto cheio de energia, pode ser conferido nos cinco títulos do pacote de DVDs lançado pela Continental: Os Sete Samurais (1954), Yojimbo (1961), Sanjuro (1962), Derzu Uzala (1974) e Ran (1985). A mesma empresa promete para o segundo semestre uma segunda caixa com mais cinco títulos: Rashomon (1950), A Fortaleza Escondida (1958), Céu e Inferno (1963), O Barba Ruiva (1965) e Madadayo (1992).Desse primeiro lançamento, apenas Derzu Uzala não faz parte do ciclo de samurais do mestre japonês. Mas, claro, definir essas obras apenas como "filmes de samurais" seria empobrecedor, além de significar um atestado de miopia para quem escreve. Nessas velhas sagas de guerreiros, Kurosawa coloca como mestre a história do Japão e, nela, as condições universais de qualquer homem em situação-limite.Aliás, universalidade foi um diferencial na trajetória de Kurosawa, desde que apareceu para a platéia ocidental com Rashomon, vencedor do Festival de Veneza de 1951. Alguns dos seus filmes, como Os Sete Samurais, parecem perfeitamente assimilados à estrutura do western - a forma consagrada da saga americana. Isso não por acaso, porque Kurosawa sempre se confessou admirador de John Ford, o sumo sacerdote do faroeste.Em Os Sete Samurais, por exemplo, temos de um lado a clássica situação do vilarejo de agricultores assolado por bandidos. De outro, a não menos clássica história de guerreiros sem emprego, errando em busca de alguma coisa para fazer. Os homens do campo não sabem se defender sozinhos. Convocam um guerreiro e este passa boa parte do tempo juntando o grupo de sete homens que fará a guerra. Há uma plástica da batalha em Kurosawa e há a beleza intrínseca desse cinema essencialmente viril. Mas há também a profundidade com que se debate a função do guerreiro na sociedade. Os samurais se sacrificam, salvam a população a troco de duas tijelas de arroz, mas no fundo não são aceitos por ela. Um dos homens se apaixona por uma garota camponesa mas o romance é proscrito. Eles saem do nada, intervêm e, na hipótese de sobreviverem, estão condenados a desaparecer novamente no nada. Exatamente como caubóis, como um John Wayne em filme de John Ford.Wayne? Sim, e como Wayne foi o ator-fetiche de Ford, Mifune era a marca registrada de Kurosawa, pelo menos nesta fase. Ele faz um tipo meio maluco em Os Sete Samurais, capaz no entanto de um gesto heróico na batalha final. E é o protagonista de Yojimbo e Sanjuro. Yojimbo é um primor de ironia e distanciamento aplicado a um gênero. Mifune interpreta novamente o "ronin", o samurai sem senhor, que chega a um vilarejo assolado pela violência. Dois clãs rivais disputam o poder e transformam a vida dos habitantes em inferno. O samurai, disputado por ambas as facções, faz leilão de si mesmo, empregando-se ora em uma ora em outra. Grande papel de Mifune, enérgico como sempre, e sabendo ser engraçado.Sanjuro é a seqüência de Yojimbo, pedida pelos produtores de Kurosawa e rodado no ano seguinte. Novamente Toshiro Mifune faz o samurai que, com sua espada e picardia, ajuda a limpar um povoado devastado pela corrupção. O filme se destaca tanto pela beleza épica quanto pela divertida paródia que faz das produções japonesas daquele tempo. Há, por exemplo, um efeito de deslocamento em cenas, que seguem rigorosamente o figurino de um filme de época enquanto a trilha sonora parece contemporânea e ocidentalizada. Essa dissonância coloca a história em plano irreal, como se flutuasse entre dois tempos diferentes.Os samurais estão também presentes na superprodução Ran, desta feita rodada em cores. Mas agora são samurais a serviço de uma lenda tipicamente ocidental, a de Lear, o velho monarca de Shakespeare. É a retomada do diálogo de Kurosawa com Shakespeare, de quem já tinha adaptado Macbeth, com o título de Trono Manchado de Sangue, filme de 1957. Ran, como Lear, é a história do soberano que decide dividir seu reino entre os filhos assim que sente a proximidade da morte. Em Lear são três filhas; em Ran, três herdeiros.Em ambos, o resultado é o mesmo: no plano pessoal, a ingratidão contra o pai. No político, a lição de que não se divide impunemente o poder. Irmão se ergue contra irmão e, na ausência da lei do pai, o sangue corre. A história é rica em implicações simbólicas e sociais. Kurosawa conservou seu conteúdo e transformou-o em épico de grande efeito visual, uma construção geométrica de planos na qual nada se deve ao acaso ou à inspiração de momento durante a filmagem. Detalhista ao extremo, o cineasta desenhava as seqüências principais plano a plano.Também a beleza visual é o que primeiramente impressiona em Dersu Uzala, filme que Kurosawa foi fazer na União Soviética porque não conseguia trabalho no Japão. A história, baseada nas memórias de um oficial soviético, fala do relacionamento deste com um caçador Goldi, nas estepes siberianas. Kurosawa, trabalhando com material ficcional restrito, soube encontrar na paisagem siberiana seu outro personagem privilegiado. O esplendor do campo, o ciclo das estações, as tempestades, o vento, a neve - tudo é usado com senso de ritmo e espetáculo. Já se chamou esse filme de comovente. É algo mais. Com sua simplicidade, toca em algumas verdades elementares da condição humana. Não é pouco, mas gente intelectualizada a fórceps tem dificuldade em aceitar esse tipo de coisa. Deixe eles para lá e viaje no filme.

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