Cinema de João César Monteiro em retrospectiva

Vai e Vem, do diretor João César Monteiro, caiu como uma espécie de objeto não identificado sobre o Festival de Cannes, onde foi exibido pela primeira vez. O diretor, figura extravagante, difícil de classificar, havia morrido pouco tempo antes, em fevereiro. Cannes, o evento mais importante do cinema mundial, recebia esse testamento de Monteiro e continuava sem saber o que fazer dele, em que escaninho dos gêneros e estilos cinematográficos colocá-lo. O espectador da Mostra BR de São Paulo terá oportunidade não apenas de ver Vai e Vem, como vários outros dos filmes do cineasta português. Segui-los será um interessante exercício de compreensão de uma das carreiras originais do cinema contemporâneo. Somente neste fim de semana, o espectador paulista terá acesso a uma série de filmes significativos de Monteiro: Vai e Vem, A Bacia de John Wayne, As Bodas de Deus, Branca de Neve, À Flor do Mar, O Último Mergulho, Veredas e Silvestre. Monteiro produziu bastante - e sempre sob o signo da polêmica. Como sempre trabalhou no risco da navalha, Monteiro nem sempre acertou - mas esse também é um comentário subjetivo. Disciplinado, ele põe na tela imagens de rigor total, com planos construídos de forma milimétrica e grande beleza. A primeira apreensão que se deve ter de um filme de Monteiro é com ênfase no aspecto visual. Você não irá encontrar nele um único plano dispensável, nem clichês visuais, nem nada que se pareça com o arroz com feijão da TV. Em geral, o próprio Monteiro protagoniza com o nome de João de Deus ou João Vuvu. Sua presença física é outro fator de estranheza. Não parece crível aquela figura esquelética, vestida de forma convencional, que nunca ou quase nunca ri, dedicado a recitar aforismos sábios, e em geral cercado de belas mulheres. Uma espécie de vampiro, decalcado do Nosferatu de Dreyer, às vezes Quixote, como foi representado no traço de Gustave Doré. Seus personagens são sibaritas, seres refinados, que se relacionam com as mulheres de maneira estética, em busca de um prazer colocado na manipulação de elementos sutis. Em seu filme mais conhecido, A Comédia de Deus, que será apresentado na 2ª feira, João é sorveteiro de alto nível e colecionador de pelos pubianos. É também cultor de rebuscados rituais de sexo que celebra com suas parceiras. Em seu pequeno Portugal, percorrido a pé, ou no "eléctrico", como em Vai e Vem, Monteiro, como seu alter ego João Vuvu, é um observador cético do mundo contemporâneo. Mesmo em seu testamento cinematográfico, quando filmava sabendo da morte iminente, não perde sua verve irônica. Como aquele personagem de Machado de Assis, sabia mesclar as tintas da galhofa e da melancolia.

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