Cinema de Glauber Rocha revisto nos 25 anos de sua morte

Os 25 anos da morte de Glauber Rocha, que se completam nesta terça-feira, serão lembrados com uma maratona de seus filmes ("A Idade da Terra", "Câncer" e "Di Cavalcanti") e os documentários "Depois do Transe" e "Anabazys", feitos por sua filha, Paloma Rocha, e por Joel Pizzini, para acompanhar os DVDs "Terra em Transe" e "A Idade da Terra" restaurados. O evento acontece a partir das 15 horas, no Tempo Glauber, centro cultural criado por sua família para guardar seu acervo com mais de 100 mil documentos. Quinta-feira, a partir das 14 horas, tudo acontece de novo na Cinemateca Brasileira. Lá, o programa será acrescido do curta-metragem "O Pátio", o primeiro realizado pelo cineasta. Os dois documentários são do Projeto Coleção Glauber Rocha, que prevê a restauração e o lançamento em DVD de quatro filmes realizados no Brasil: "Terra em Transe" (já lançado), "A Idade da Terra" (previsto para o fim do ano), "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" (em restauro na Inglaterra, pelo especialista brasileiro João Sócrates) e "Barravento" (em preparação, no Brasil). "Cada filme tem um documentário sobre sua realização e sua importância hoje", diz Paloma, que dirige o projeto patrocinado pela Petrobrás. "Para isso, usamos o acervo do Tempo Glauber, com mais de 30 horas entrevistas dele, sobras de filmes e entrevistamos contemporâneos e companheiros de trabalho." Paloma tem carinho e especial por "Idade da Terra", o último filme de Glauber, que foi mal recebido no Festival de Veneza de 1980. "Ele dizia que só 25 anos depois o filme seria entendido. Ao entrevistar seu diretor assistente, Roque Araújo, que havia guardado as 35 horas de imagem e outro tanto de áudio rodados para A Idade da Terra, nos demos conta de que esse período havia se completado ", continua Paloma. "Com o material de Roque, refizemos o filme de várias formas, como Glauber queria, damos esta opção no DVD." Di Cavalcanti também foi pouco visto, pois durante muitos anos a família do pintor não permitiu sua exibição. Já Câncer, rodado em 1968 no Rio e editado em Cuba, leva ao extremo a crítica social e política de Terra em Transe, quase prevendo o acirramento da ditadura que viria no fim daquele ano. Estes filmes, como de resto a obra de Glauber, ficou fora do alcance dos brasileiros durante a ditadura. Por isso, o relançamento dos quatro títulos principais e os documentários que usam muitas entrevistas que ele deu o apresentam ao público brasileiro, pois só em 1979 ele pôde aparecer na televisão, no programa Abertura, da extinta TV Tupi, com enorme sucesso de público. Esse material está no Tempo Glauber desde os anos 80, graças à mãe do cineasta, dona Lúcia Rocha, que fez da preservação do acervo a razão de sua vida. "Um artista não morre enquanto sua obra permanece", explica ela. "E enquanto eu viver, Glauber também estará vivo." No entanto, ela já esteve para perder o casarão de Botafogo onde o instalou e ainda não conseguiu higienizar e digitalizar os 100 mil documentos (manuscritos, desenhos e roteiros de Glauber, além de fotos e filmes). "Aprovamos um projeto na Lei Rouanet (R$ 800 mil), a Presidência da república reconheceu o acervo como de interesse público e o Arquivo Nacional deu assessoria. Só falta o dinheiro", avisa Paloma. "Esse material corre risco por estar guardado sem as condições ideais e também porque, como não temos cópias, os pesquisadores recorrem aos originais. Esse é o nossa maior preocupação, pois uma questão que deveria sensibilizar o Estado virou problema de família."

Agencia Estado,

22 de agosto de 2006 | 14h56

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