Cinema de Carlos Adriano conquista os americanos

Carlos Adriano vive momentos desingular felicidade. O curta-metragista de Remanescências e AVoz e o Vazio - A Vez de Vassourinha está tendo o seu talentoreconhecido nos EUA, onde o primeiro filme foi comprado pela NewYork Library e acaba de ser escolhido como uma das cem obrasexperimentais mais importantes do cinema mundial. O segundo jáhavia vencido o Festival de Chicago, no ano passado.Admirador do cinema experimental de Carlos Adriano, ocrítico, professor e teórico da comunicação Décio Pignatari nãose conforma: todo mundo, os críticos principalmente, reclamamque os curtas brasileiros estão muito certinhos, feitos paraservir de portfólio para diretores cuja esperança é chegar aolonga, mas quando alguém propõe algo novo e ousado, o movimentonão é de apoio mas, ao contrário, é de retração ou desconfiança.Desta maneira ele explica as reservas com que os filmes deCarlos Adriano foram recebidos no Brasil. No Brasil, repita-se,e só aqui. Os americanos já se curvaram ao talento do diretor.Só para constar: A Voz e o Vazio ganhou o prêmio demelhor curta documentário e a Placa de Ouro de longa foi paraAgns Varda, por seu filme Les Glaneurs et la Glaneuse.Agns é a grande homenageada do Festival Internacional de Curtasde São Paulo, que começa no dia 23. Só esse prêmio já deveriadeixar o diretor recompensado, vingando-o do conformismo que oleva a ser alvo de isolamento no País.Mas Carlos Adriano exulta ainda mais com a iniciativa daNew York Library. Pioneira no reconhecimento do cinema comoforma de manifestação artística e possuidora de um dos maiores,senão o maior acervo de vídeos e filmes do mundo, a bibliotecacomprou uma cópia de Remanescências para incorporar à suacoleção. O curta faz parte agora de um dos maiores patrimôniosculturais do mundo. E justamente Remanescências acaba de serescolhido, por um júri de especialistas (críticos, pesquisadorese historiadores de cinema, além de cineastas), como um dos cemfilmes experimentais mais importantes de todos os tempos. Comotal, será exibido em outubro no Festival de Telluride, noColorado, EUA.Lista seleta - Nem Gláuber Rocha, o enfant terrible docinema brasileiro, conseguiu entrar na seleta lista. CarlosAdriano está lá com o Luis BuÏuel de L´Age d´Or e Un ChienAndalou, com alguns filmes de Jean-Luc Godard, Dziga Vertov eoutros artistas que fizeram avançar a linguagem do cinema.Carlos Adriano sorri. Não há falsa modéstia na sua atitude. Sehá um diretor brasileiro que tem consciência da importância doque faz, é ele. Carlos Adriano é radical na sua arte. Para elenão existe essa coisa do mercado. Existe o cinema comoinstrumento de experimentação e pesquisa, de conhecimento,também. Ele prepara agora, com Pignatari, uma adaptação de OsRatos, o clássico do escritor gaúcho Dionélio Machado. E nãoesgota seus projetos por aí. O Prêmio Resgate da Secretaria deEstado da Cultura, no biênio 1999-2000, contemplou outro projetode Carlos Adriano. Faces e Disfarces vai dissecar a obra deR.F. Luchetti, o chamado papa da pulp.Pignatari entregou a Carlos Adriano o primeiro esboço doroteiro de Os Ratos, antes de viajar para a Europa. E nãoadianta perguntar ao diretor se será um curta ou um longa. Paraele, tanto faz. "O filme terá a duração que for necessária."Na sua cruzada por um cinema de experimentação e vanguarda, temcomo aliado Bernardo Vorobow, que faz as vezes de produtor.Ambos são capazes de gestos ousados. Em Roma, foram bater àporta de Jean-Marie Straub e Danile Huillet, a dupla dediretores do mais belo filme experimental dos últimos anos:Gente da Sicília. Ficaram amigos e hoje trocam cartas etelefonemas. Falam a linguagem comum dos visionários.

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