Cinema brasileiro marca presença no Festival de Locarno

Filmes brasileiros são bem recebidos por público e crítica; evento vai até o próximo dia 16

Flávia Guerra, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2009 | 14h35

Depois de um início de fim de semana conturbado por conta de uma tempestade que castigou o público da Piazza Grande, o 62º. Festival de Locarno fecha o domingo com dia ensolarado e otimista para o cinema. Em especial, o cinema brasileiro fez bonito nesta primeira metade do evento que vai até o próximo dia 16.

 

Na competição oficial, Os Famosos e os Duendes da Morte, longa-metragem de estreia de Esmir Filho, teve acolhida positiva da imprensa e sessão para o público lotada no sábado. Nas conversar com jornalistas e no debate com o público, era grande a curiosidade da plateia internacional sobre ‘O Brasil sem samba’ que Esmir retrata. Filmado na cidade gaúcha de Lajeado, Os Famosos e os Duendes da Morte traz para a tela o lado melancólico e dolorido da adolescência. Inspirado no livro de Ismael Caneppelle, o filme causou estranhamento em uma plateia que, ainda que não conheça, recebeu bem e quer conhecer melhor um dos tantos ‘Brasis’ que em geral não ganham a atenção do público estrangeiro. ‘Este filme não tem samba, mas, em compensação, tem Bob Dylan’, brincou a produtora Sara Silveira ao apresentar o filme para a plateia. Já Esmir também ressaltou que seu filme ‘e praticamente um movimento. ‘É o resultado de um onda, eu diria. Começa com a construção da imagem que os jovens querem ter na internet, do conteúdo que eles produzem, passa pelo livro do Esmael, pelo filme em si até chegar nos vídeos que estamos agora postando na internet como complemento de tudo isso. É um processo longo, mas muito enriquecedor’, observou o jovem diretor.

 

Já na competição de curtas, Mira, de Gregorio Graziosi, tem recebido elogios até mesmo dos ‘concorrentes’. Curto, porém preciso, o filme pode ser, grosso modo, definido como um estudo visual sobre o diálogo entre a obra de Oscar Nyemeyer e o cinema de Michelangelo Antonioni. Graziosi escolhe os ângulos retos das criações paulistanas do arquiteto para retratar a incomunicabilidade característica dos filmes do diretor italiano. ‘Se pararmos para observar, o ‘ângulo reto’ nas formas paulistanas ‘e algo que nos isola e nos torna solitário. Assim como no cinema de Antonioni, em São Paulo, e principalmente nas obras do Nyemeyer, o modo como nos inserimos no ambiente conta muito sobre o modo como pensamos, agimos e sentimos’, comentou o jovem diretor.

 

Homenagens

Enquanto os outros brasileiros não exibem seus filmes, o cinema internacional ganha destaque. Cameron Diaz, que era uma das apostas de Locarno para levar um pouco do glamour hollywoodiano ä Piazza Grande, decidiu não dar o ar de sua graça. Há que se admitir que sua ausência na noite de sexta, quando a estrela deveria apresentar My Sister’s Keeper, novo filme de Nick Cassavetes rendeu mais que sua presença. Tudo porque consta que sua ausência foi causada pela recusa da direção do festival em não pagar o cachê exigido pela atriz: a bagatela 100 mil francos suíços (algo em torno de 250 mil reais).

 

Outra presença menos pop, mas não menos notável, fez a alegria do publico cinéfilo no sábado. O ator italiano Toni Servillo foi homenageado e concedeu uma rara aula magna. Quem entregou o Excellence Award ao ator napolitano foi sua ‘companheira perfeita dos sets’ Anna Bonaiuto. ‘Sempre falei que se um dia eu interpretasse o Papa, Anna seria a Madonna’, brincou o ator. Estrela dos recentes Gomorra e Il Divo, que lhe rendeu o premio David di Donatello de Melhor Ator de 2008, Servillo ressaltou que estes seus dois últimos filmes são mais que expoentes do bom, e novo, cinema italiano. ‘Discordo de quem diz que estas produções aumentem o preconceito que o mundo tem em relação a Itália. Se Gomorra tivesse ganhado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tenho certeza que as criticas teriam terminado. E este não é um filme provinciano que retrata um capo suburbunão da máfia. Este filme fala de coisas que vão se refletir no futuro dos nossos filhos.’

 

Já o mestre polonês Andrzej Wajda, que seria homenageado na noite de amanhã, cancelou sua vinda ao festival por motivos de saúde. Mesmo assim, a homenagem ao diretor ocorre normalmente com a exibição de um documentário dirigido por quatro alunos da Andrzej Wajda Master School of Film Directing, em Varsóvia.) Andrzej Wajda: Silence on Set! acompanha Wajda nos bastidores das filmagens de Katyn, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em seguida, será exibido o mais recente filme do diretor: Tatari (2009), que integrou a competição oficial do ultimo Festival de Berlim, em fevereiro.

 

Amanhã, o cinema brasileiro volta à cena com a estreia internacional de Notas Flanantes, da mineira Clarissa Campolina. No final da semana, será a vez do documentário Terras, de Maya Da-Rin e A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila, de Felipe Bragança e Marina Meliande.

Tudo o que sabemos sobre:
Cinema brasileiroFestivalLocarno

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.