Cinema brasileiro ganha dicionário de filmes

O cinema brasileiro ganha seu primeiro dicionário de filmes. Hoje, às 19 horas, o pesquisador Antônio Leão lança um volume, com 3.883 verbetes. O livro, bancado com recursos próprios, inventaria a produção cinematográfica brasileira em longa-metragem, de 1908 até fevereiro deste ano. O Dicionário de Filmes Brasileiros soma 946 páginas e oferece, aos amantes de números e histórias curiosas, rico material.Quem chegar à página 393, saberá que o romance O Guarani, de José de Alencar, é o que mais versões cinematográficas ganhou no País. São sete. A primeira foi realizada em 1911, por Salvatore Lázzaro, e a última, por Norma Bengell, em 1996. Até o garanhão David Cardoso incorporou o índio Peri, em produção da Boca do Lixo (Fauzi Mansur/1979).Outro recordista de versões é Iracema, do mesmo Alencar. A primeira, de 1919, traz a assinatura de Vittorio Capellaro. A penúltima, produzida na Boca do Lixo (Carlos Coimbra/1979), trazia Francisco di Franco como Martim, e Helena Ramos, a musa máxima da pornochanchada, como a "virgem dos lábios de mel". Iracema, Uma Transa Amazônica (1980) só pede emprestado a Alencar o nome de sua protagonista (Edna de Cássia). Em vez de ser virgem pura com lábios de mel, a Iracema de Bodanzky & Senna, de lábios de fel, prostitui-se pelas cercanias da Transamazônica.No campo das estatísticas, Antônio Leão, que é economista, oferece dados valiosos. Rio e São Paulo estão na origem de 3.141 longas-metragens, ou seja, respondem por 81% da produção nacional. O Rio é o campeão, com 1.575 longas. São Paulo fica em segundo posto, com nove títulos a menos. Graças à pornochanchada, que respondia por mais da metade da produção brasileira nas décadas de 70 e 80, os paulistas ficam bem. O terceiro colocado na parada da produção é o Rio Grande do Sul (68 títulos). Seguem-se Mato Grosso (49), Pernambuco (31), Bahia (25), Brasília (20), Paraná (19), Ceará e Amazonas (13 cada um), Pará (8); Alagoas (7) Paraíba (6), Santa Catarina (5), Espírito Santo (4); Rio Grande do Norte (2), Goiás e Mato Grosso do Sul (um cada). Em outras oito unidades da Federação, pelos critérios do Dicionário, nunca se produziu um longa.Quem ler o verbete de A Rainha Diaba (Fontoura/1975) saberá que "o filme é uma biografia disfarçada do homossexual Madame Satã", que vendeu 236.805 ingressos. Na página 148, o leitor saberá que Fernando de Barros, hoje consultor de moda, dirigiu duas beldades em Caminhos do Sul (1949): Maria della Costa e Tônia Carrero. Cada uma mais linda que a outra. Na página 204, sabe-se que Como Era Gostoso Meu Francês (NPS/1970) enfrentou problemas com a censura, porque atores interpretavam "índios nus". Mais adiante (pág. 323), registra-se que Dorival Caymmi e Paulo Gracindo disputaram o amor da mesma mulher (Dulce Bressane) no filme Estrela da Manhã (Jonald/1950), escrito por Jorge Amado.O Dicionário soma histórias que se desfiam como os contos das Mil e Uma Noites, narrados por Xerezade, para evitar morte iminente. Em entrevista ao Estado, Leão fala de sua pesquisa solitária, mas imprescindível.Por que, até hoje, não tínhamos uma filmografia brasileira completa? E por que você a elaborou sozinho?Antônio Leão da Silva Neto - São vários porquês. Procurei gente, obtive promessas, mas, no fim, nem retorno tive. Acho que minha sina é a de pesquisador solitário, que vagueia pela marginalidade. Não sou do meio cinematográfico, nem tenho dotes jornalísticos e capacidade de influenciar. Depois, é difícil lidar com os egos envolvidos. As pessoas querem pôr fotos, enfeiar o volume. Fiz sozinho, era o meu sonho.Por que o Brasil, um país tão grande e populoso, fez menos de 4 mil longas em 94 anos de história?O cinema até bem pouco tempo era considerado arte marginal. Enquanto os EUA, nos anos 30, já produziam clássicos do quilate de E o Vento Levou, o Brasil capengava com algumas produções da Cinédia. E a quantidade não é fator determinante. Nos anos 80 produzimos muito, mas com péssima qualidade. Hoje o cinema brasileiro está em estágio animador, produzindo poucos, mas bons filmes.Por que só os gaúchos mantêm, na Internet, filmografia completa?Ninguém se preocupou em fazer isso, talvez porque não seja uma mera colagem de dados. Faz-se necessário realizar minucioso trabalho de pesquisa. Talvez agora, com esse dicionário, alguém resolva fazer isso, pois está mais fácil.Há Estados que produziram só um filme, ou nenhum. Qual foi seu critério para definir a origem geográfica de um filme? A sede da empresa produtora? Ou entraram também fatores como locações, temas e mão-de-obra?Essa foi uma das partes mais difíceis do livro, porque ninguém se preocupa com isso. Veja os jornais falando de Abril Despedaçado, ou O Invasor, ou Netto Perde Sua Alma. Alguém menciona a origem geográfica do filme? Alguém informa quem são seus técnicos? Essas informações inexistem. Meu critério foi considerar a sede da produtora, não as locações. Podem (e devem) existir casos de Estados colocados na "escala zero" que, na verdade, produziram um ou mais longas. Só que a informação não chegou ao eixo Rio-SP. Sylvio Back, por exemplo, produziu em vários Estados. Não considerei sua origem e sim a da produção do filme. Esse tema é controverso e poderá levar a várias correções.O que o Censo Cinematográfico, produzido pelo MinC, por meio das cinematecas brasileiras, acrescentará a seu trabalho?O Censo é da maior importância. Quero mesmo que meu trabalho seja superado com sobras, que transbordem informações sobre nosso cinema. Por que você fez um livro sem fotos? Meu livro é seco, vai direto ao assunto, traz essência informativa, não beleza plástica, nem luxo editorial. Raciocine comigo: num livro com quase 4.000 verbetes, teria de colocar pelo menos 10% de fotos, o que significaria 400 fotos, com autorização da produtora, do fotógrafo e do artista. O custo disso inviabilizaria o dicionário como produção independente. Teria de ter dois volumes, pois passaria das 1.500 páginas. Quem sabe numa próxima edição?Seu livro tem mais de 900 páginas e custa apenas R$ 45,00. O preço do livro foi calculado com base no custo. Não estou visando ao lucro. Posso recuperar meu dinheiro e dar minha modesta contribuição para o cinema brasileiro. Poderia cobrar R$ 80,00 e ter lucro, mas muita gente não poderia comprar e não era essa a intenção.Que períodos de nossa história cinematográfica lhe ofereceram mais problemas? A fase muda, embora fisicamente esteja 97% perdida, está 99,99% coberta pelo trabalho da Cinemateca Brasileira. Meu maior trabalho foi no período 1931-1966 e de 1983 até hoje. Tente procurar alguma literatura sobre esse período. Não existe. Há livros luxuosos com fotos coloridas, mas pouquíssima informação.Dicionário de Filmes Brasileiros. De Antônio Leão da Silva Neto. 944 páginas. R$ 45,00. Hoje, a partir das 19 horas. 2001 Megastore Sumaré. Avenida Sumaré, 1.744, tel. 3873-2017.

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