Cinema brasileiro dá as cartas em festival português

A lâmina afiada de Sérgio Bianchi vai brilhar e fustigar o público do 6.º Festival de Cinema Luso-Brasileiro, que começou ontem na pequena cidade de Santa Maria da Feira, norte de Portugal. Cronicamente Inviável, A Causa Secreta, Romance, Maldita Coincidência e o antológico documentário Mato Eles? compõem a retrospectiva do cineasta paranaense, que está sendo apresentado ao público lusitano como "o que, actualmente, melhor interpreta o caos social brasileiro".Com os filmes, chega o livro Câmara-Faca, o Cinema de Sérgio Bianchi, organizado pelo pesquisador e professor de cinema João Luiz Vieira especialmente para o festival. O volume reúne três entrevistas de fôlego com o realizador, uma seleta de ensaios e críticas, além de biofilmografia completa e muitas ilustrações. Livros e retrospectivas vão recensear também a obra dos portugueses Teresa Villaverde (Três Irmãos, Mutantes) e José Álvaro Morais.Estimular o convívio, praticamente inexistente, dos cinemas brasileiro e português tem sido a ambição do festival de Santa Maria da Feira. "Abandonamos a idéia de alargar o festival aos países africanos de língua portuguesa, uma vez que a produção desses países era extremamente frágil. Assim, optamos por concentrar o festival numa proposta bilateral que desse origem a profundo conhecimento de ambas as culturas", explica Américo Santos, diretor do evento e do Cineclube da Feira, que o promove. Até domingo, esse diálogo ocorrerá por intermédio de diversas mostras, debates e atividades paralelas.Apesar de não existir um sentido real de disputa, o predomínio brasileiro é nítido. Na sessão competitiva, os longas Madame Satã, de Karim Aïnouz, Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, O Invasor, de Beto Brant, A Festa de Margarete, de Renato Falcão, e Samba Canção, de Rafael Conde, concorrerão ao prêmio de melhor filme com um único representante português, O Rapaz do Trapézio Voador, de Fernando Matos Silva. Américo Santos informa que privilegiou as "primeiras obras", o que não confere, pelo menos, com o caso de Beto Brant, que tem em O Invasor o seu terceiro longa. No âmbito dos curtas, a situação é um pouco menos desequilibrada, com 25 brasileiros contra 10 pratas da casa. Entre os brasileiros, destacam-se os premiados Como se Morre no Cinema, de Luelane Loiola Corrêa, À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, Dadá, de Eduardo Vaissman, e o novíssimo O Resto É Silêncio, de Paulo Halm.Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, e Seja o que Deus Quiser!, de Murilo Salles, serão exibidos em sessões especiais, fora de competição. Três clássicos do cinema brasileiro serão apresentados e discutidos por críticos brasileiros nas chamadas "sessões masterclass": Limite, de Mário Peixoto, São Bernardo, de Leon Hirszman, e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor.Como a febre do documentário também pulsa entre o Tejo e o Douro, criou-se este ano um segmento especial para acolher Rocha Que Voa, de Eryk Rocha, Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, Urbânia, de Flávio Frederico, e Samba Riachão, de Jorge Alfredo (aliás, onde anda esse filme depois de ter vencido ex-aecquo o Festival de Brasília de 2001?). E ainda o franco-lusitano Où Gît Votre Sourire Enfoui?, de Pedro Costa, um documentário sobre o método de trabalho dos cineastas Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet.O Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira é um desses laboriosos trabalhos de formiga que tentam suprir as lacunas desprezadas pelo mercado. O intercâmbio cinematográfico Brasil-Portugal chegou a dar bons frutos na década passada - entre os quais Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas, Amor & Cia., de Helvécio Ratton, e Bocage - O Triunfo do Amor, de Djalma Limongi Batista. Mas parece ter voltado à inanição, embora os suportes institucionais continuem de pé. Apesar da língua comum, continua sendo longa e difícil a travessia.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.