Cinema belga ganha mostra em SP

O grande destaque da Mostra de Cinema Contemporâneo da Bélgica, que o Centro Cultural São Paulo exibe até domingo, é Rosetta, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. O filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes/99, continua inédito no circuito comercial brasileiro.Jean-Thomas Bernardini, da Imovision, distribuidor no Brasil de alguns dos mais importantes filmes de expressão francesa, conta que se interessou em lançar o longa-metragem em nosso mercado. Mas, "com a conquista da Palma de Ouro, os produtores pediram preço altíssimo, similar ao cobrado por blockbusters". Ele e outros distribuidores independentes brasileiros acabaram desistindo. Por sorte, André Sturm, da Pandora Filmes, comprou O Filho, novo filme dos irmãos belgas. Oriundos do cinema documental, Jean Pierre, de 51 anos, e Luc, de 48 anos, têm mais de 60 filmes no currículo.Rosetta, o mais famoso, causou sensação e polêmica em Cannes. Primeiro, por derrotar Tudo sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar. O cineasta espanhol teve de se contentar com o prêmio de melhor direção (depois, a Academia de Hollywood laureou-o com Oscar de melhor filme estrangeiro). Rosetta, que rendeu também o prêmio de melhor atriz para Emilie Dequenne, não alcançou a repercussão merecida no mundo. Mas na Bélgica, a protagonista do filme tornou-se até nome de lei (que buscava solução para o problema do desemprego).Depois do triunfo em Cannes, tudo indicava que o filme causaria furor, mundo afora. Ele encapou a prestigiosa revista Cahiers du Cinéma (número de junho/99, que fez o balanço dos palmarès) e iniciou sua carreira internacional. Mas acabou restrito ao mercado europeu. Os irmãos Dardenne desfrutam imenso prestígio no circuito dos grandes festivais da Europa. No ano passado, voltaram a Cannes com O Filho. Este filme, que não está na Mostra Belga, discute tema dos mais complexos: um pai carpinteiro aceita (como aprendiz de seu ofício), o jovem que matou seu filho.Sexo e desemprego - O cinema belga de expressão francesa costuma ser, na maioria das vezes, confundido com o cinema francês. Exemplo típico é Uma Relação Pornográfica, uma das seis atrações da Mostra Belga. O filme, já lançado no Brasil, foi visto como típica produção made in França. Protagonizado pela ótima Natalie Baye e por Sergi López (ator espanhol, radicado em Paris), o filme de Frédéric Fonteyne, é genuinamente belga. França e Luxemburgo são co-produtores.Os personagens de Natalie e Sergi se encontram num apartamento para fazer sexo. Muito sexo. Nas horas que passam juntos, a excitação é plena, mas jogo amoroso é impessoal. Um nada pergunta ao outro. Mas o tempo vai passando e algo começa a mudar. Uma Relação Pornográfica, apesar do título forte (vem do original Une Liaison Pornographique) é filme de grandes qualidades, que nunca resvala para o oportunismo.O tema de Rosetta, o frisson da Mostra, é em tudo oposto ao de Uma Relação Pornográfica. Ou seja, os irmãos Dardenne voltam sua câmara aos deserdados sociais da Europa. A jovem Rosetta, desempregada, sonha com uma vida normal.Mas arrumar emprego não parece fácil. Ela vive num trailler minúsculo, sem banheiro e água corrente. A mãe, alcoólatra, exige cuidados freqüentes. A moça, apavorada com a possibilidade de seguir os passos da mãe, empreende desesperada e instintiva batalha na tentativa de superar os limites a ela impostos.Outro título que chama atenção na mostra é Wild Blue, de Thierry Knauff. Durante sete anos, o diretor colheu imagens em diversas partes do mundo. O filme funciona como um diário de viagem. Na banda sonora não há música, só a voz de mulheres que evocam histórias de violência e opressão. O cineasta define seu filme como "um documentário experimental, um ensaio cinematográfico sobre as contradições entre o bem e o mal".A mostra completa-se com mais três títulos: Thomas Est Amoreux, comédia satírica de Jean-Pierre Renders; Pourquoi se Marier le Jour de la Fin de Monde, thriller psicológico de Harry Cleven, e La Patinoire, sátira assinada por Jean-Philippe Toussaint.Mostra do Cinema Contemporâneo da Bélgica. Sexta, às 16 horas, domingo, às 20 horas, Thomas Est Amoureux/2000, de Pierre-Paul Renders; sexta, às 18 horas, domingo, às 16 horas, La Patinoire/99, de Jean-Philippe Tousaint; sexta, às 20 horas, Wild Blue/2000, de Thierry Kanuff. Sábado, às 16 horas, domingo, às 18 horas, Pourquoi se Marier le Jour de la Fin du Monde/99, de Harry Clever; sábado, às 18 horas, Une Liaison Pornographique/99, de Fréderic Fonteyne; sábado, às 20 horas, Rosetta/99, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. De hoje a domingo. Grátis. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 327703611). Até domingo.

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2003 | 13h09

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