Cinema argentino, um vencedor em Berlim

Daniel Burman ficou feliz da vida. Seu filme El Abrazo Partido ganhou dois prêmios na 54.ª edição do Festival de Berlim, que terminou no sábado. O próprio Burman recebeu o Urso de Prata correspondente ao prêmio especial do júri e outro Urso foi para o ator Daniel Hendler. Os argentinos deram as cartas do cinema latino em Berlim, em 2004. Além disso, a Argentina ainda recebeu um Urso de Ouro especial para um de seus diretores mais importantes, Fernando Solanas, que recebeu o Life Achievement, o prêmio de carreira. Burman trouxe os pais a Berlim. Levou-os à entrevista coletiva que se seguiu à exibição de seu filme. Único filme latino da competição, El Abrazo Partido ganhou por mérito próprio e não porque o júri presidido pela atriz Frances McDormand quisesse fazer média com a a organização. Afinal, a mostra deste ano colocou o foco na América Latina e na África. Quando conversou com o Estado, Burman ainda não sabia do resultado, mas disse: "Estou orgulhoso da recepção calorosa para o nosso filme. Ela ocorre num momento importante, quando Solanas, que é uma referência decisiva para todos nós que fazemos cinema na América Latina, recebeu seu prêmio de carreira. Seria embaraçoso se o filme argentino da competição fosse mal recebido." El Abrazo Partido conta a história de personagens que habitam uma galeria no centro de Buenos Aires. Toda a Argentina, com seus problemas econômicos e culturais e a diversidade de sua geografia humana, cabe ali dentro. "Queria que aquela galeria fosse um espelho do país, mas também queria que a humanidade dos personagens extrapolasse as fronteiras do país. Fiquei contente de saber que o público e os críticos também se identificaram com El Abrazo Partido. É um filme sobre relações familiares, sobre relações humanas e sociais. Teria falhado se não fosse universal", ele disse. Daniel Hendler faz o protagonista, um jovem judeu de origem polonesa, que está levantando a árvore genealógica da família para conseguir um passaporte europeu. No filme, o rapaz tem problemas com o pai, que abandonou a Argentina para ir lutar em Israel, na Guerra dos Seis Dias. Quando se encontram, Daniel Hendler joga na cara do seu velho: "Você - na verdade ele diz ´vos´, como fazem os argentinos - quis salvar todos os judeus do mundo, menos o único que importa, seu filho." Essas difíceis relações entre pais e filhos fizeram-se presentes em vários filmes da seleção oficial e das mostras paralelas. Hendler só vai se resolver - e assumir a própria identidade de judeu argentino - quando acerta as contas com os pais. O abraço partido do filme é lindo, você vai ver. Um filme como El Abrazo Partido não pode ficar longe das telas brasileiras. Burman conta que o filme é e não é autobiográfico. "Não é no sentido de que meu pai sempre esteve presente e nunca me faltou, nos momentos em que precisei dele. Não só dele. De minha mãe, também. Venho de uma família ajustada e essa é uma diferença considerável. Mas o filme é autobiográfico porque aquela galeria eu conheço muito bem." Burman mora ali perto, freqüenta aquele lugar e usou seu conhecimento da vizinhança para garantir a veracidade do filme. "Ser artista, diretor de cinema, é ser um pouco ladrão de imagens e intimidades. A gente está sempre alerta, sempre observando, para ver de que maneira as coisas e as pessoas podem servir como inspiração para o nosso trabalho." O filme é impregnado de humor. A mãe é a típica mãe judia celebrada pelo cinema, o que não quer dizer que seja um estereótipo. Esse humor pode ser definido como "judaico", como o de Woody Allen, mas Burman diz que não sabe o que é isso. "É um humor que faz parte da minha vida, do meu cotidiano. Não é uma elaboração intelectual. Nós, judeus, sempre formamos uma comunidade forte na Argentina. Mesmo em toda a adversidade, acho que raramente deixamos de rir, do mundo e de nós mesmos. Talvez seja isso que você chama de humor judaico." Com o ator Daniel Hendler, ele fez um filme conhecido do público brasileiro, pelo menos em programações especiais: Esperando al Messias. "Daniel é um amigo. Entrega-se totalmente ao que faz e me oferece seu talento para que eu possa criar personagens que me encantam." Daniel Hendler, na verdade, é uruguaio. Vive entre Montevidéu e Buenos Aires. Fez, ainda faz, teatro em seu país. Conta, brincando, que não ganhou um centavo como ator em Montevidéu. "Para pagar meu aluguel, tenho de atravessar o Prata", brinca. Burman considera uma responsabilidade fazer cinema na América Latina. "Nossos países são tão pobres que mesmo uma produção independente como El Abrazo Partido é cara. A Argentina está querendo sair da crise. É um país de forte tradição cultural, mas no quadro geral das dificuldades a cultura vira uma coisa supérflua, o que não deve ser. A cultura, e o cinema dentro dela, é fundamental para nos ajudar a entender quem somos." Veja galeria de fotos da Berlinale

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