Cinema argentino ganha prêmio em Portugal

O longa-metragem argentino Todas as Aeromoças Vão Para o Céu foi o grande vencedor da 18.ª edição do Festróia, que se realiza na cidade de Setúbal, a 50 quilômetros de Lisboa. O Chimpanzé, do Quirguistão (já apresentado na Mostra Internacional de Cinema São Paulo) e Olá Tereska, da Polônia, com os prêmios especial do júri e direção, completam a trinca de grandes vencedores do certame português, tido como o mais importante do país. O Brasil, que concorria na mostra principal com o gaúcho Netto Perde sua Alma, foi ignorado. Outros filmes nacionais, que concorriam em mostras paralelas, saíram igualmente sem nada. Foram os casos de Onde a Terra Acaba, A Canga e Samba Riachão. O Brasil teve também os longas-metragens O Casamento de Louise e Histórias do Olhar exibidos em mostra informativa.A importância de um evento desse tipo se mede pela qualidade das obras apresentadas e por sua repercussão. Se o Festróia não chega a comover a mídia portuguesa, pelo menos no primeiro quesito passa com louvor. Apresenta grande diversidade de títulos (150 filmes passaram pelos dois cinemas da cidade durante os dez dias de festival), boa parte deles de boa qualidade. E alguns excelentes, como são os casos dos vencedores. A começar pelo argentino Todas as Aeromoças Vão Para o Céu, maneira original de contar uma pequena história de amor envolvendo um médico fanático por essas profissionais. A maneira de narrar, que lembra em estilo Os Amantes do Círculo Polar, do espanhol Julio Medem, mostra que a cinematografia do país vizinho continua viva, ativa e inteligente, mesmo em meio à formidável crise econômica por que passa.Outras boas surpresas vieram da Polônia e da Grécia. Olá Tereska, que deu a Robert Glinski o prêmio de direção, é um despojado estudo sobre a adolescência vivida em conjuntos habitacionais do país. Esses monstrengos arquitetônicos, sobreviventes da era comunista, convidam ao anonimato, à violência e ao alcoolismo, como já havia notado Krzysztof Kieslowski, o mestre de Não Amarás e da trilogia das cores. Tereska é a garota que passa por um rito complicado rumo à vida adulta, numa família atingida pelo desemprego e pelo alcoolismo. Filmado em preto-e-branco e contando com o notável Zbigniew Zamachowski (de A Igualdade É Branca) no elenco, Tereska passa seu recado com discreção e impacto contido. É um belo filme.Belo também é o grego Um Dia de Agosto, que levou o prêmio de roteiro. Usando a técnica de histórias paralelas, passa-se num único dia de verão forte, quando dramas familiares e amorosos se entrelaçam. Seu ponto forte é a narrativa engenhosa, qualidade também presente no americano Just a Kiss, exemplo de que mesmo um gênero batido como a comédia romântica ainda pode ser reinventado. Para passar seu recado, o diretor Fischer Stevens usa descontinuidades de narrativa e técnicas de animação.Enfim, esses filmes resumem a proposta do Festróia: privilégio às cinematografias alternativas, aquelas que têm pouca oportunidade no circuito comercial e só chegam pelas margens aos principais festivais de cinema, cada vez mais contaminados pelo mainstream, porque representam oportunidades econômicas para divulgação de filmes e estrelas. O Festival de Setúbal mantém-se um tanto à margem desse tipo de badalação. Aposta tudo na diversidade cultural e nos alternativos, como não se cansa de repetir seu presidente, o escritor Mario Ventura. Trata-se de uma ênfase no ousado e no diferente. Só para ilustrar: o clássico brasileiro Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, foi o vencedor do primeiro festival de Setúbal, em 1985.O repórter viajou a convite da organização do festival

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