Cinema ambiental retrata realidade preocupante

A destruição violenta e progressiva do meio ambiente foi o principal tema do 4.º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Fica, encerrado na tarde de domingo, na cidade de Goiás, distante 130 quilômetros de Goiânia. Ainda sob o impacto da enchente que destruiu, no último dia do ano passado, parte do município, especialmente os monumentos considerados patrimônio da humanidade, a mostra retratou uma realidade preocupante. "O assunto é, mais do que nunca, atual e precisa ser constantemente discutido", comentou o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que presidiu o festival neste ano. Mais do que nas edições anteriores, o 4.º Fica apresentou um panorama preocupante sobre a crescente atuação destrutiva do homem. Como o documentário Ape Hunters, do inglês Jeremy Bristow, sobre a ameaça e extermínio de gorilas em Camarões, premiado como o melhor média. Caçados indiscriminadamente por uma população pobre e que não tem outras ricas fontes de alimentação, os animais são abatidos às toneladas e vendidos ilegalmente, graças à cumplicidade do governo, que prefere não intervir. "É difícil incriminar aquele povo, pois eles realmente não têm outra fonte alimentícia, o que joga a culpa para os países ricos", comentou Bristow. "Para se evitar essa e outras destruições, seria necessária a aplicação de uma espécie de Plano Marshall nas nações mais necessitadas." Como as ações governamentais muitas vezes não ultrapassam o plano político, as tentativas de salvação ficam por conta de homens decididos a lutar contra um sistema. É o que narra o documentário Tong Tana - Paradise Lost, dos suecos Jan Röed, Erik Pauser e Björn Cederberg, escolhido como melhor longa do festival. O filme mostra a ação do suíço Bruno Manser que, em 1989, decidiu auxiliar os índios da tribo Penan, ameaçados de extinção na ilha de Bornéu. O motivo é a crescente devastação da floresta, promovida por uma indústria madeireira, que conta com o apoio tácito do governo - curiosamente, o ministro do Meio Ambiente é um dos principais empresários do ramo. Manser, cuja história foi cogitada a se transformar em filme pelas mãos de Steven Spielberg, pouco conseguiu, no máximo conscientizando e instruindo os índios a lutar por seus direitos. E o fim do documentário releva um futuro sombrio: a devastação continua e Manser, considerado baderneiro, estava desaparecido até a conclusão do filme. Há casos, porém, em que a ação não é isolada. Em Aftermath: The Remnants of War, prêmio especial do júri do Fica, o canadense Daniel Sekulich detalha o trabalho de pessoas regularmente contratadas para limpar terrenos que ainda escondem toneladas de minas e bombas, resquícios de conflitos passados. O perigo não é seletivo, atingindo desde países ricos, como a França, até os que enfrentam dificuldades, como a Bósnia. As conclusões são assustadoras: a humanidade terá de esperar mais 600 anos para que todas as áreas sejam completamente limpas. Em alguns casos, a ação destruidora afeta diretamente diversas gerações. No Vietnã, por exemplo, inúmeras famílias sofrem ainda com ação das armas químicas utilizadas pelos Estados Unidos, na guerra travada nos anos 60. Deformações físicas provocadas por mutações genéticas, por exemplo, resultaram em crianças sem algum dos membros ou, na imagem mais estarrecedora do documentário, em um bebê com um crânio gigante. Os outros premiados foram A Canga, do brasileiro Marcus Vilar (curta); Indonésia, do indonésio Robert Chapell (série de TV); Barrados e Condenados, de Adrian Cowell, e Alternativas, de Dustan Oeven (goianos); e Herdsman, do chinês Chen Jian Jun (filme).

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