Cinema alemão discute a realidade pós-Muro

Duas faces da Alemanha moderna: a queda das ideologias e a percepção da realidade pela velha geração. Os assuntos dominam dois dos principais filmes alemães trazidos pela 27.ª Mostra BR de Cinema - de um lado, Adeus Lenin, de Wolfgang Becker, que mostra Berlim como uma cidade de divisões e separações; de outro, Schultze Gets the Blues, de Michael Schorr, uma ficção fortemente influenciada pelo documentário sobre um aposentado que decide abandonar o tradicionalismo.Adeus Lenin tornou-se uma das maiores bilheterias da Alemanha, conseguindo a façanha de bater a saga de Harry Potter. "Meu filme não tem segredos; talvez, por isso, seja um grande sucesso", disse Becker, em encontro com Schorr, a convite do Estado. "Trata-se de uma história bem contada, que nivela momentos dramáticos com comédia. O que o diferencia são seus detalhes." O filme se passa na região oriental da Berlim do início dos anos 1990, época da queda do Muro. Conta a história de Alex, filho de uma ativista comunista - o pai abandonou a família e fugiu para o lado ocidental. O drama começa quando um ataque cardíaco mantém a mulher em coma durante vários meses, justamente no período em que o Muro (e o socialismo) cai, inaugurando uma nova era. Ao acordar, a mãe de Alex não pode sofrer nenhuma forte emoção sob risco de morte, o que obriga o rapaz a recriar os antigos hábitos orientais.Becker se preocupou com um detalhe importante: a dignidade do povo alemão que viveu sob o regime comunista. "Ao contrário do que muitos pensam, pessoas dignas moravam no lado oriental, com seus anseios e projetos." É o que se pode constatar em Schultze Gets the Blues, de Michael Schorr - apesar de se passar nos tempos atuais, a história tem como protagonistas senhores que passaram boa parte da vida sob o comando de Moscou. Não há, porém, resquícios desse período. Schultze é um aposentado cuja grande habilidade está em tocar acordeão. Ao conhecer o diferente ritmo que marca a música tocada no Texas e em Louisiana, nos Estados Unidos, porém, Schultze sente-se atraído pelo novo. "Trata-se de um filme sobre como a realidade é percebida pelas pessoas", comenta Schorr. "Apesar de ser uma figura fictícia, Schultze relaciona-se com pessoas das próprias comunidades onde filmamos, tanto na Alemanha como nos Estados Unidos, o que dá uma agradável realidade à história."

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