Cinema adaptou 20 obras de Nelson Rodrigues

Ele é, de longe, o mais filmado dos autores brasileiros. Já houve 20 filmes baseados em Nelson Rodrigues, desde o primeiro, Meu Destino É Pecar, de Manuel Peluffo, nos anos 50, até Gêmeas, de Andrucha Waddington, em 1998. Há os que se destacam, claro - O Boca de Ouro, de Nelson Pereira dos Santos, A Falecida, de Leon Hirszman, e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, quase sempre considerado o melhor de todos.Cada um desses filmes já foi analisado, discutido, dissecado mas nunca houve um estudo como o que realiza atualmente o ensaísta e professor de cinema da USP, Ismail Xavier. Ele se propõe a uma abordagem ampla - Nelson Rodrigues no cinema. Quer mostrar que houve diferentes enfoques da obra do artista, conforme a época. Xavier privilegia os três filmes citados como melhores, mas acrescenta um quarto à lista - O Casamento, também de Jabor.As primeiras adaptações foram tímidas, marcadas pelo conservadorismo da década de 50. Destacam o Nelson melodramático aquele que se escondia por trás de pseudônimos, nos folhetins. Tornaram-se progressivamente mais ousadas a partir dos 60, os anos que mudaram tudo. Taras, incestos, cunhados canalhas, ninfetas devassas, um clima muitas vezes mórbido de desejo a exalar das famílias - no universo rodriguiano, a modernidade rima com decadência. Há, nas obras-primas de Nélson, uma poesia arrebatadora ou então um populismo bizarro que o transformam num autor verdadeiramente especial.Nelson sempre foi homem de opiniões polêmicas. O reacionário, o anjo pornográfico achava Brecht uma besta e dizia que o clássico Cidadão Kane, de Orson Welles, era, quando muito, um Pirandello suburbano. Essas opiniões contribuíram para o folclorismo em torno dele. Nelson já foi tema de textos e livros alguns clássicos. Xavier coloca os de Hélio Pellegrino e Décio de Almeida Prado entre os seus preferidos. E não se esquece das introduções de Sábato Magaldi para as edições da Aguilar do Teatro Completo.Quase tudo já foi mapeado e pesquisado. Xavier tem um rascunho de livro - metade já escrita, a outra por escrever até o fim de 2001. Há dois grandes momentos nas adaptações de Nelson pelo cinema brasileiro - o que começa com O Boca e avança por mais quatro ou cinco filmes nos anos 60, o que começa com A Dama do Lotação, de Neville de Almeida, no fim dos 70, e prossegue com mais quatro ou cinco filmes nos 80. O bloco dos 60 é mais interessante. O livro vai explicar por quê.

Agencia Estado,

20 de dezembro de 2000 | 18h46

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