cinema

Helvécio Ratton passou o fim de semana muito ocupado em Belo Horizonte, realizando testes para selecionar o elenco de seu novo filme. Uma Onda no Ar começa a ser rodado só no início do ano que vem, mas o diretor, paralelamente à captação de recursos, segue trabalhando no roteiro, buscando os atores e técnicos. Ratton não está parado. Será um filme especial ou, em todo caso, muito diferente de Amor & Cia., a obra precedente do diretor, baseada em Eça de Queiroz. Em Amor & Cia., com Patrícia Pillar, Marco Nanini e Alexandre Borges, Ratton tratou de temas como amor, amizade e adultério. O filme, ambientado no século passado, exibia indiscutível acabamento técnico e artístico, com produção cuidada. Ganhou até o prêmio de melhor filme íbero-americano no Festival de Mar Del Plata (o júri era presidido por Abbas Kiarostami, o magnífico), sem convencer integralmente a crítica. Foi visto com reticência pela crítica. Isso não diminui a expectativa diante de Uma Onda no Ar. Os documentários de Ratton são bons, A Dança dos Bonecos é simpático. O diretor merece crédito. Além desse crédito que ele merece, há o interesse despertado pelo próprio tema do filme. Uma Onda no Ar baseia-se na Rádio Favela de Belo Horizonte. Criada nos anos 80 por um grupo de 50 amigos, a rádio localizada na Vila Nossa Senhora de Fátima, uma das 11 que compõem o Aglomerado da Serra, a fatia mais pobre da zona sul da capital mineira, sofreu todo o tipo de pressão e perseguição até ser reconhecida e legalizada como rede educativa pelo governo. Foram mais de cem batidas policiais que levavam a rádio a mudar de endereço, com freqüência, e quase tantos processos. O reconhecimento veio em janeiro deste ano, quando o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, assinou a portaria que legalizou a Favela FM (104,5). Fama internacional - Nesses quase 20 anos, a rádio, que começou pirata em 1981, tornou-se internacionalmente conhecida, menos por sua longevidade e mais pelo trabalho social desenvolvido nas áreas pobres de Belo Horizonte. A Rádio Favela, pertencente à Fundação Cultural Educativa e Comunitária da cidade, é administrada por moradores da vila. Seu compromisso é com a realidade humana e social das favelas na zona sul, mas ultimamente ela conseguiu diversificar seu público, sem trair o objetivo original, a ponto de ser, segundo dados do Instituto Vox Populi, a quarta em audiência na Grande Belo Horizonte. Três vezes foi premiada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em reconhecimento às campanhas feitas contra as drogas. Como se não bastasse, a rádio tem toda uma atividade de recuperação de marginais. Um ex-bandido do morro é hoje repórter na emissora. Ratton está verdadeiramente empolgado com o projeto do filme. Conta que teve aprovação e assessoria de Misael Avelino dos Santos, diretor de Programação da Rádio Favela, e da equipe toda. "Gravei 150 páginas de texto com eles, ouvindo histórias que me forneceram a base para o roteiro". Embora se tenha exercitado como documentarista no início de sua carreira, o objetivo do diretor não foi fazer um documentário sobre a Rádio Favela. Ratton partiu para a ficção. "Baseei-me no fait divers e fiz uma adaptação", conta ele. Um dos programas de maior sucesso da rádio chama-se Fala, Corno, em que só os maridos traídos podem fazer solicitações musicais. Cada um deles tem de se identificar como traído e contar sua história, o que transforma o programa em "consultório psicanalítico a céu aberto", define o diretor. A rádio também veicula palavrões, não aqueles cabeludos, mas os triviais, como o que indica "fezes". Tudo isso é uma festa para o público jovem, o que mais sintoniza a emissora. Ratton arrisca uma interpretação: "Jovem é rebelde por natureza e a rádio vem ao encontro de seu desprezo pelas normas e convenções". As 150 páginas de material colhido em entrevistas foram transformadas em roteiro por Ratton, em parceria com Jorge Durán. O roteiro é centrado num grupo de quatro personagens, acompanhados em dois tempos - no começo dos anos 80 e hoje -, "de forma intrigante e criativa", garante o diretor. Não há por que duvidar. Ratton destaca outro fator decisivo - nesses anos todos, a rádio tem sido um território para a expressão do movimento negro. Grupos de hip hop, rappers, todos encontram uma vitrine na Rádio Favela de Belo Horizonte. Desta maneira, diz o diretor, o No Ar do título tem também outro significado - quer dizer Uma Onda Noir. Nos dois tempos da narrativa, os personagens centrais ora têm 18 anos, ora estão chegando aos 40. Ratton realiza os testes de seleção de elenco buscando atores nessas duas faixas. Para contar sua história com pé no real - "Uma fantasia embasada na realidade", define -, ele precisa de rostos novos. Não quer saber de atores globais, de gente muito conhecida do cinema, da televisão ou, mesmo, do teatro. Quer desconhecidos. Acha que só assim o público vai perceber o que há de original e verdadeiro no material humano e social do filme que pretende dirigir. Captação - Uma Onda no Ar está orçado em R$ 1,8 milhão - um orçamento até barato, nestes tempos de produções inflacionadas do cinema brasileiro. Ratton quer filmar em super 16, até para ter liberdade de rodar na favela. Mas ele conta que pretende filmar lá só as externas. "Os interiores vão ser integralmente reconstituídos em estúdio", conta. O super 16 ainda é usado por outro motivo. "Quero ver se consigo com este filme uma textura mais áspera da imagem; acho que tem tudo a ver com o que pretendo dizer". Por enquanto, o diretor conseguiu captar só metade do orçamento previsto. Os parceiros que já embarcaram no projeto são a Usiminas, o Banco Rural, a Telemar e o Prodemgi. Ele tem até o fim do ano para captar os 50% restantes. Em Amor & Cia., até por tratar-se de uma adaptação literária de um autor considerado clássico, a linguagem era mais comedida. "Quis ser mais elegante, mais irônico", que explica as diferenças de tom do filme anterior. "Quando falava de relações sociais empregava a farsa, quando tratava dos problemas do casal, era mais melodramático". Foi Kiarostami quem lhe fez ver isso, numa conversa após a premiação, na Argentina. Mas as diferenças de tom já haviam sido assinaladas no Estado. Um filme pode combinar diversos tons; o importante é que, além de adequados ao que se pretende dizer, eles também se harmonizem entre si, de forma a não criar grandes desequilíbrios. Faltou esse equilíbrio no cuidadoso Amor & Cia. Agora, o estilo, a técnica, o tom - tudo é diferente. Uma Onda no Ar marca "o meu diálogo com o Brasil de hoje", diz Ratton. Entre os fatores que o fizeram interessar-se pela experiência da Rádio Favela de Belo Horizonte está o fato de que a emissora é livre - não está ligada a nenhum grupo político ou religioso. "É uma história bonita de resistência e solidariedade", define o diretor, entusiasmado com a riqueza do material de seu novo filme.

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