Cinéfilos têm agenda cheia no fim de ano

Se você é cinéfilo pode entrar emestado de graça. Está se iniciando a festa do cinema que vaitransformar este final de ano, em são Paulo, numa sucessãoininterrupta de emoções até o réveillon. Começa amanhã comTosca, o magnífico filme-ópera de Benoît Jacquot, e umapenca de Fellinis (a estréia de Os Palhaços, a reapresentação,em cópias novas, na sessão Marlboro do Unibanco Arteplex, deFellini Satyricon, Fellini Roma e Amarcord).Prossegue na quarta, dia de Natal, com as reestréias, também emcópias novas, de O Grande Ditador, de Charles Chaplin, eQueimada, de Gillo Pontecorvo. E culmina, na próximasexta-feira, dia 27, com o monumental O Senhor dos Anéis - AsDuas Torres, que Peter Jackson adaptou do livro cult de JohnRonald Reuel Tolkien. Haja coração.Quatro filmes de Federico Fellini numa só semana. E,depois, em janeiro, muito possivelmente no dia 17, a reestréiade mais um clássico felliniano, que a Pandora vai recolocar nastelas na cópia nova de uma versão restaurada - A Estrada daVida (La Strada). Difícil escolher, entre tantasobras-primas do mestre, qual a melhor. Fellini sempre foi ummentiroso genial, que forjou para si mesmo uma biografiafictícia tão convincente que todo mundo, incluindo ele próprio,terminou por acreditar nela. O circo sempre foi importante emsua obra e Fellini gostava de dizer que, quando menino, haviafugido, pondo-se na estrada atrás de um circo que havia passadopor Rimini, a cidade na qual nasceu. Sua mãe, a mulher,Giulietta Masina, todas diziam que era mentira, mas Fellinireconstitui a cena na abertura de Os Palhaços, que fez paraa TV. É um falso documentário, mas o que é falso e o que éverdadeiro no cinema e no cinema de Fellini, em particular?Quando o grande Federico fez Oito e Meio, no começodos anos 1960, não foram poucos os críticos que tentaramdesautorizar o filme e o autor, dizendo que era absurdo, comofazia Fellini, usar o cinema para debruçar-se sobre as própriaslembranças, desenvolvendo uma obra tão autobiográfica. Naverdade, não havia absurdo nenhum e Fellini provou que serpessoal, viajando em torno ao próprio umbigo, não o impedia deser universal. Ele foi à Roma dos Césares em Satyricon, suaadaptação de Petrônio, passou pela capital italiana que conheceutanto, antes, durante e depois da guerra, em Roma, e ainda foi aRimini para reconstituir suas fantasias de garoto emAmarcord. Na verdade, não foi a lugar nenhum, pois na suaúltima fase Fellini ficou tão solipsista que não se dignava asair do célebre estúdio nº 5, de Cinecittà, no qual reconstruíao mundo segundo seus desejos e fantasias.Satyricon de Fellini, Roma de Fellini,Casanova de Fellini. Poucos, talvez nenhum outro diretor,tenha incorporado tanto o próprio nome à criaçãocinematográfica. Era sempre ele, Fellini, único e múltiplo, comosó os maiores criadores conseguem ser. Quando fez A DoceVida, em 1959, escandalizando a Igreja com a imagem daqueleCristo que sobrevoava Roma, carregado por um helicóptero,Fellini já falava de uma Babilônia 2000 ou de um Satyriconrevisitado e modernizado. Fez, exatamente dez anos mais tarde, oseu Satyricon, mas o filme baseado em Petrônio, contando asaventuras de dois rapazes (Encolpius e Asciltus) que disputam omesmo efebo (Giton), foi praticamente demolido pelos críticos,que o trataram como "stravaganza" para baixo.A viagem de Fellini à decadência do império romano exibeum visual suntuoso, com influências assumidas de Botticelli eBrueghel. Fellini pode ter filmado o lixo da civilização, masseu filme é um luxo. A censura do regime militar, sempre atentaà moral e aos bons costumes, mutilou Satyricon a ponto detornar certas cenas incompreensíveis e o filme ainda maisdescontínuo do que realmente é. Continuou mutilando Roma deFellini, quase nada nas cenas de bordéis, com aquelasprostitutas imensas, mas podando inteira a célebre seqüência dodesfile de modas eclesiásticas, que você poderá ver na íntegra,agora. E há Amarcord, a infância de Fellini sob o fascismo.O episódio do "zio matto" (o tio louco que grita: "Quero umamulher´) e a passagem do transatlântico Rex, dentro da noite,são momentos maiores da arte do diretor. De Fellini, apenas? Não, do cinema.Festival Marlboro de Cinema. Sexta e segunda,Satyricon/69, dur. 138 min. Sábado e quarta,Amarcord/73, dur. 127 min. Domingo e quinta, Roma/72, dur.128 min. Diariamente, às 21h30 (terça não haverá sessão). De R$9,00 a R$ 12,00. Unibanco Arteplex 5. Rua Frei Caneca, 569, emSão Paulo, 3º piso do Frei Caneca Shopping, tel. (11)3472-2365.

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