CineCeará começa hoje e promete polêmica

O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, abre hoje, em caráter hors concours, no tradicional Cine São Luiz, centro de Fortaleza, a 13.ª edição do CineCeará. José Henrique é filho do romancista Rubem Fonseca e, talvez não por acaso, esta sua estréia no longa-metragem-solo (dirigiu antes Cachorro, um dos episódios de Traição) se situe no gênero policial. O Homem do Ano é baseado em O Matador, de Patricia Melo, escritora que tem Rubem Fonseca na conta de guru literário. Ou seja: tudo em família. A noite de abertura dá início também à homenagem desta edição, destinada ao cineasta italiano Roberto Rossellini (1906-1977), nome mais notável do neo-realismo italiano. Renzo, filho de Rossellini, estará presente no Ceará para receber a homenagem e debater a obra do pai. De Rossellini, pai, haverá uma retrospectiva composta de alguns dos seus mais notáveis títulos - Roma, Cidade Aberta, Alemanha Ano Zero, Stromboli, Viagem na Itália, De Crápula a Herói e dois curtas documentais, O Peru Prepotente e La Vispa Tereza. Amanhã começa a mostra competitiva de longas-metragens que, este ano, terá sete títulos em competição: Amarelo Manga, de Claudio Assis (PE), Narradores de Javé, de Eliane Caffé, À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, e Cama de Gato, de Alexandre Stockler (os três de SP), Meu Tempo É Hoje - Paulinho da Viola, de Izabel Jaguaribe, As Tranças de Maria, de Pedro Rovai e Seja o que Deus Quiser!, de Murillo Salles (os três do Rio). Desses, dois já foram vencedores de outros festivais brasileiros: Amarelo Manga ganhou o Festival de Brasília do ano passado, e Narradores de Javé levou nove troféus, incluindo o de melhor filme, no recém-encerrado Festival Cine PE, ex-Festival do Recife. Reapresentações na mostra competitiva desses filmes já premiados em concurso são redundâncias em tese indesejadas, mas, enfim, ambos são excelentes e disputarão palmo a palmo os troféus cearenses. Não é impossível que sejam preteridos pelo júri em favor de outros concorrentes, também de ótimo nível, como os documentários Meu Tempo É hoje e À Margem da Imagem. Ou mesmo pelo novo longa de ficção de Murilo Salles, Seja o Que Deus Quiser!. Tudo pode acontecer, em especial se o júri der preferência a filmes inéditos em detrimento dos consagrados em outros festivais. Certo, nada disso consta de nenhum regulamento e, em tese, todos concorrem em igualdade de condições, independentemente de terem recebido prêmios ou não. Mas quem conhece a intimidade dos júris sabe que esse tipo de decisão pode muito bem pintar, intramuros. Mas tudo isso são passa de conjectura a priori e ninguém sabe de fato como os filmes serão recebidos, tanto pelo público quanto pelos jurados. Dois outros longas-metragens, fora de concurso, compõem a programação do 13.º CineCeará: Lua Cambará - nas Escadarias do Palácio, de Rosemberg Cariry, e O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, que passa na noite de encerramento, dia 13. O filme é um documentário sobre o Carandiru e deve despertar polêmica, em especial se comparado ao longa ficcional de Hector Babenco, também sobre o presídio, e atual sucesso do cinema brasileiro. Mas talvez um dos debates programados cause tanto frisson quanto os filmes projetados na tela do São Luiz. Sexta-feira, no indigesto horário das 16h, ocorre a palestra O Cinema no Novo Governo, com a presença do senador Saturnino Braga, presidente da Subcomissão de Cinema no Senado; João Eustáquio da Silveira, diretor da Ancine (Agência Nacional de Cinema) em Brasília, e Cláudia Leitão, secretária de Cultura do Estado do Ceará. Seja qual for o texto que cada palestrante tenha preparado para o encontro, será inevitável que a discussão acabe convergindo para o atual confronto entre cineastas e governo. Como tem sido amplamente divulgado pelos jornais, alguns diretores e produtores de grande poder, como Luiz Carlos Barreto e Cacá Diegues vêm se posicionando contra um suposto "dirigismo" de setores do governo Lula, o que afetaria a concessão de verbas para novos projetos. A discussão promete e, espera-se, venha a esclarecer alguns pontos, entre eles este: qual o efeito do dirigismo cultural numa economia que, em tese, funciona na base do livre mercado? Ou o cinema é totalmente dependente do Estado?

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