Cineastas preocupam-se com privatização do Banespa

Toni Venturi é a pessoa mais doce, mais educada do mundo. Chega a ser difícil entender como esse homem e artista aparentemente tão controlado e em paz consigo mesmo sente necessidade de fazer filmes radicais ou sobre personagens radicais. O Velho documenta a vida de Luiz Carlos Prestes, Latitude Zero vai fundo nos conflitos de personagens outsiders que expõem seus dramas e misérias de forma muito direta, à flor da pele.Venturi trabalha atualmente num novo projeto, um documentário co-realizado pelo também documentarista Renato Tapajós. Vão contar a história da guerrilha brasileira nos anos 60 e 70. Já colheram 34 horas de entrevistas com aquelas pessoas que fizeram uma opção radical pela luta armada. Esse filme vai se chamar O Olho do Furacão. O próprio Venturi parece viver no olho do furacão.Líder de classe, usou o palco do Cine Brasília, na apresentação de Latitude Zero, no sábado à noite, para um ato político. Venturi, e não só ele, a classe cinematográfica brasileira inteira, está preocupado com o que vai ocorrer com a compra do Banespa pelo Santander. Entre 1995 e 1999, o Banespa investiu R$ 50 milhões na realização de filmes brasileiros, de um total de R$ 120 milhões investidos no setor - ou seja, cerca de 40%. Se o Santander não seguir a tradição do Banespa, pode-se prever o impacto que isso terá sobre a produção cinematográfica brasileira nos próximos anos. Venturi fez um chamamento à mídia, à opinião pública, ao governo. Propõe que o assunto seja debatido, de forma a sensibilizar o Santander a prosseguir com o compromisso cultural do banco que comprou.Orçamento - Latitude Zero é um filme de baixo orçamento. Não entrou no programa Brasil Cinema, da secretaria do Audiovisual, que estimula a realização de filmes até R$ 1 milhão, porque o programa foi instituído depois. Mas fica nessa faixa e até abaixo dela. Num primeiro momento, Venturi captou R$ 300 mil na passagem de 1998 para 99. Do ano passado para este, captou mais R$ 350 mil. Estima que o filme tenha sido feito com R$ 650 mil. Estima, porque ainda está na fase de fechar as contas. Espera captar mais um pouco por meio da Lei do Audiovisual, neste fim de ano, para investir na comercialização.Sua opção foi, ou é, por um tipo de cinema radicalmente autoral. Concorda que Latitude Zero é um filme exasperado. Aceita menos a definição de que é um filme gritado. Sabe que criou um produto que exige uma sensibilidade especial. Mas acha que a sinceridade do filme, a sua entrega, favorece a empatia com o segmento mais politizado ou sofisticado do público, aquele que não reza exclusivamente pela cartilha hollywoodiana do grande espetáculo.Optou por manter o filme com dois personagens, como na peça de Fernando Bonassi que lhe deu origem. No texto, da peça como do filme, há referência a um terceiro personagem, o Mattos, que engravidou Júlia, a protagonista. Um canalha. Na elaboração do roteiro, Venturi e o escritor Di Moretti criaram cenas com Mattos, fazendo com que esse deus "ex-machina" deixasse de ser só uma referência. As cenas foram rodadas com o ator Celso Frateschi, que queria encenar a peça de Bonassi. O filme ficou em 105 minutos, mas Venturi e a montadora Idê Lacreta não ficaram satisfeitos. Acharam que a presença de Mattos não enriquecia e, pelo contrário, enfraquecia a estrutura dramática. Cortou toda essa partricipação, cerca de 20 minutos de material.Ele se confessa, rindo, um esquizofrênico. Como produtor, achava um absurdo cortar uma participação que havia aumentado o custo da produção, até porque envolvia complicadas filmagens com um avião. Como diretor, fez o que lhe parecia necessário para dar unidade autoral ao filme. Está feliz aqui em Brasília com a mulher, a atriz Débora Duboc, que faz Júlia, e o filho Theo. Embora bebê, Theo está estreando (com o choro) no cinema brasileiro.Venturi só se surpreende com a ponte que o repórter traça entre seu filme e o de Paulo César Saraceni, Porto das Caixas. Quer saber detalhes do filme antigo, para entender a aproximação. E diz: "Vou sair daqui e providenciar uma cópia desse filme, que não conheço." É mais uma daquelas coincidências das quais está cheia a história do cinema.

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