Cineastas paulistas contestam prêmios da Petrobrás

A questão parecia superada, mas o resultado do aguardado edital de patrocínio cultural da Petrobrás, divulgado na quinta-feira passada, voltou a pôr cineastas paulistas e cariocas em campos opostos, como nos velhos tempos da Embrafilme. Dos 31 filmes selecionados pela comissão da empresa, a maior patrocinadora do cinema nacional, 20 são do Rio e apenas 3 são de São Paulo. Os paulistas reagiram por meio de uma carta enviada à empresa, onde pedem a correção imediata da situação: ?Esse resultado não condiz absolutamente com a qualidade apresentada pelos projetos paulistas nos concursos nacionais e terá um efeito devastador, no nível de emprego e em todos setores da atividade cinematográfica de nosso Estado, em 2007?, argumentam eles, que serão recebidos amanhã na sede da estatal, no Rio, para discutir a questão.O grupo vai pedir não só uma solução - que poderia ser a ampliação das verbas da estatal para o cinema, para contemplar o cinema paulista -, mas também a retomada da política de distribuição das verbas das estatais que vinha sendo implementada até agora pela gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura e que eles julgam agora ter sido desrespeitada pela Petrobrás. Muito criticada, essa série de diretrizes tem como principal objetivo a distribuição maior das verbas entre os Estados. ?Vamos ter uma concentração ainda maior de recursos neste ano?, prevê o cineasta Toni Venturi. ?E é provável que, por causa disso, haja uma paralisação das produções em São Paulo no ano que vem.?Um dos que vão ao Rio discutir, o cineasta André Sturm admite que é agora muito difícil rever o resultado. ?Mas vamos tentar que projetos paulistas ainda sejam aprovados. A verba da Petrobrás corresponde a 40% dos recursos do cinema brasileiro?, adianta, dizendo ainda a Lei de Incentivo estadual não é suficiente para bancar a produção cinematográfica paulista, como chegou a se pensar.A Petrobrás mostra boa vontade em discutir a questão, mas rejeita o argumento dos paulistas de que a política do MinC para as estatais foi desrespeitada. ?Nunca houve uma política de cotas regionais nos nossos editais. O que há é uma preocupação em conseguir uma participação mais expressiva, mas justamente fora do eixo Rio-São Paulo?, responde a gerente de Patrocínio Cultural da Petrobrás, Eliane Costa. Eliane diz que o bom desempenho do Rio no edital reflete, apenas, a grande participação que o Estado teve em inscrições: 48% das 365. ?Eu entendo as colocações dos paulistas, mas nunca houve uma quantidade assim de projetos do Rio?, explica, reiterando que o critério de avaliação não é a procedência - mesmo quando falamos dos projetos que vêm de Estados sem tradição em cinema -, mas a qualidade. É um ponto que já foi levantado, e só faz esquentar mais os ânimos do lado de cá da Via Dutra. ?Vi como resposta da Petrobrás que eles foram pela qualidade dos projetos, mas é um critério muito relativo. Precisamos dizer que não havia ninguém de São Paulo na comissão julgadora?, opina o cineasta André Klotzel, paulista e inscrito no edital.O edital da discórdia terá um aporte de R$ 21 milhões, dado que explica o porquê de tanto barulho. Entre os 16 contemplados do Rio estão nomes de peso como Sandra Werneck e Guel Arraes. Há ainda outros quatro cariocas - Luiz Carlos Barreto, Ana Carolina, Domingos de Oliveira e Eduardo Valente - que receberam homenagens, para fechar a conta em 20 prêmios para o Rio. No ano passado, os dois Estados tiveram 9 projetos aprovados cada um.A situação de São Paulo desta vez fica ruim não só pelo baixo número de contemplados, mas também quando se sabe quem são os três: Hector Babenco (que filmará boa parte de O Passado em Buenos Aires), Paulo Morelli (da O2, que filma todo o seu Cidade dos Homens no Rio) e Ricardo Pinto e Silva (por Dores, Amores e Assemelhados, que vive há dez anos no Rio, apesar de manter a empresa em São Paulo).Um dos contemplados paulistas, Fernando Meireilles diz que está muito feliz com o prêmio, mas também não pode deixar de estranhar o desequilíbrio do resultado. ?Ainda mais se considerarmos que nosso Cidade dos Homens está sendo realizado pela O2 Rio, com elenco, roteirista e equipe cariocas. Este não é de fato um filme paulista. Pela importância da Petrobrás na história do nosso cinema, seria ótimo se a distribuição de verba tivesse critérios mais objetivos?, opina.Leia a íntegra dos depoimentos dos cineastas paulistasANDRÉ STURM (presidente do Sicesp - Sindicato da Indústria Cinematográfica de São Paulo) - "Acho que houve um erro gravíssimo de desequilíbrio no resultado. São Paulo apresentou 110 projetos. Dois dos três aprovados, dois vão ser filmados fora do estado. E o Ricardo Pinto e Silva mora e vive no Rio. A justificativa de que o critério foi só pela qualidade não convence. Faço cinema há 20 anos. Já participei de umas 30 comissões de seleção. De cada uma, um ou dois projetos são incríveis. O resto é interessante. Era de responsabilidade de quem estava chefiando a comissão de pedir que o resultado fosse revisto antes de ser tornar público. O júri, por exemplo, deveria ser mais equilibrado. Não havia nenhum membro de São Paulo. Não exigimos que o número de aprovações fosse milimetricamente matemático, mas simplesmente não vai haver cinema em São Paulo neste ano depois deste resultado. Cinema é indústria. Há uma responsabilidade industrial da comissão de seleção que não foi levada em conta por quem escolheu os projetos. Se o cinema paulista fizer dois filmes este ano, o que vão fazer todos os técnicos? Vão trabalhar em outras coisas. E quando voltarmos a produzir, onde estará esta mão-de-obra? Vamos nesta terça, às 14h, nos reunir com a comissão na Petrobras e tentar não só pedir para apresentar uma proposta para compensar esta barbaridade que foi o resultado. É muito difícil rever este resultado, já que ele já se tornou público. Mas vamos tentar que projetos paulistas ainda sejam aprovados.A verba da Petrobras corresponde a 40% dos recursos do cinema brasileiro. O edital do Estado não tem nada a ver com isso. A Petrobras é uma empresa brasileira, que está no Rio. Só isso."HEITOR DHALIA (diretor pernambucano que mora em São Paulo há 11 anos) - "Os cineastas e produtores de São Paulo estão em situação delicada. Eu mesmo já filmei meu último longa, O Cheiro do Ralo (já finalizado, em fase de pré-lançamento), sem dinheiro. Foi o único jeito. E agora, apresentei outro projeto, À Deriva. E novamente não foi aprovado. É desesperador pensar em filmar novamente sem verba. Mas, ou é isso, ou não se filma em São Paulo neste ano."ÍCARO C. MARTINS (presidente da Associação Paulista de Cineastas, APACI) - O resultado deste ano do concurso, que é a pricipal fonte de financiamento do cinema brasileiro, parece ser completamente atípico em relação a todos os outros concursos federais. Não questionamos o mérito dos premiados, mas é um engano achar que o resultado só é ruim para São Paulo. É um problema para o todo o Cinema Brasileiro, do qual representamos cerca de 1/3 da produção. Qualquer Estado do país responsável por 30% da produção, em qualquer setor, que tenha repentinamente sua principal fonte de financiamento tão drasticamente reduzida, entra numa crise gravíssima que ultrapassa facilmente a fronteira estadual. Por isso é preciso analisar bem o que ocorreu e fazer o possível para amenizar as conseqüências de tal decisão. Some-se a isso que falamos de uma atividade cultural onde nosso Estado tem contribuído com filmes de reconhecida importância e qualidade.

Agencia Estado,

03 de julho de 2006 | 17h43

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