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Cineastas discutem o melhor e o pior do uso do erotismo no cinema

Luiz Boognesi, Evaldo Mocarzel, Paulo Sacramento, Pedro Furtado e Beatriz Seigner conversam sobre os limites nas telonas; confira

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2015 | 03h00

50 Tons de Cinza estreia nesta quinta-feira, 12, como um provável blockbuster - assim como os livros nos quais ele é baseado, todos nas listas de mais vendidos do mundo.  Mas a plateia está preparada para encarar, na tela grande, uma parcela de erotismo que estava distante ultimamente? Ou ainda, é este o início de uma liberdade erótica no cinema mainstream? 

O Estado procurou, então,  cineastas brasileiros para discutir o lançamento e possível sucesso de bilheteria de 50 Tons de Cinza, assim como o erotismo no cinema - e os principais exemplos de como o erótico pode estar nas telas, de forma chocante ou não. São eles: Luiz Bolognesi (roteirista, produtor e diretor de Uma História de Amor e Fúria, roteirista de As Melhores Coisas do Mundo e Bicho de Sete Cabeças), Evaldo Mocarzel (diretor de À Margem do Lixo, À Margem do Concreto e À Margem da Imagem), Paulo Sacramento (produtor de Amarelo Manga, Encarnação do Demônio e diretor de O Prisioneiro da Grade de Ferro), Pedro Furtado (roteirista de Boa Sorte de projetos para televisão como Um Pé de Quê? e Mulher de Fases) e Beatriz Seigner (diretora, produtora e roteirista de Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano e atriz do filme Linha de Passe). Veja, abaixo, as opiniões de cada um deles.

O filme 50 Tons de Cinza conseguiu vender, em pré-venda, no Brasil, cerca de 10 mil ingressos pelo Groupon. Nos Estados Unidos, as vendas também bateram recorde. Certamente deve ser um dos filmes com maior arrecadação no ano. Como vê o sucesso de um filme como este? 

Luiz Bolognesi: O já esperado erotismo no longa tem uma parcela de responsabilidade nisso? Acho que a novidade é o gênero "conto de fadas erótico". John Ford disse que cinema é sexo e violência. Sexo e transgressão movimenta o imaginário da dramaturgia desde o teatro grego, veja Édipo Rei, por exemplo. Filmes como O último Tango em Paris, na linha autoral ou 9 e meia semanas de amor, mais comercial, sempre levaram multidões aos cinemas. Para mim a novidade é o erotismo infantilizado. O filme é uma espécie de Cinderela erótico. Isso é muito doido.

Evaldo Mocarzel: Ainda não vi o filme 50 Tons de Cinza, mas já fui bombardeado pelo trailer em sessões de outros filmes. Logicamente o erotismo tem total responsabilidade no frisson que a campanha de lançamento está provocando e desnuda uma potência da magia do cinema: o voyeurismo. A linguagem da chamada sétima arte é ontologicamente realista, como afirmava o grande crítico francês André Bazin, mas é também hipnótica e voyeurística por excelência, na qual permanecemos em um estado de pré-hipnose na atmosfera penumbrosa das salas de projeção. Através de estratégias brechtianas, Jean-Luc Godard bem que tentou nos anos 1960 e 1970 boicotar o ilusionismo do cinema, mas essa arte do tempo consegue trazer de maneira deslumbrante os nossos devaneios mais profundos, mais inconfessáveis, na tela da nossa própria mente. O filósofo Edgar Morin já escreveu que "o cinema é uma placenta de obscuridade onde ampliamos coletivamente a nossa subjetividade". Quando o lançamento de um filme vem carregado de libido, há sempre um desejo inconsciente em todos nós de liberarmos nossos desejos mais ocultos e até mesmo nossas taras coletivamente na fruição cinematográfica, com tela grande e som envolvente e amplificado. Através do trailer, acredito que Cinquenta Tons de Cinza não deva ser um grande filme. Talvez deva agradar aos adeptos do sadomasoquismo com sua estética aparentemente publicitária.

Paulo Sacramento: Não é difícil entender o fenômeno. É a retomada do ponto de vista mercadológico do erotismo, este filão que curiosamente vinha sendo subestimado pelo cinema. Com um verniz "sofisticado" ele pode voltar às principais vitrines e certamente será um fenômeno de bilheteria, como ocorreu com 9 1/2 Semanas de Amor e Instinto Selvagem, para citar poucos. 

Pedro Furtado: Acho que o sucesso do filme reflete o sucesso do livro. Imagino que a novidade é um erotismo que retrata o sadomasoquismo de maneira palatável para o grande público. Quando o sadomasoquismo chega no mainstream quer dizer que a maioria das pessoas já o aceita como fetiche ou como uma prática presente em suas vidas, o que também é uma consequência de características sadomasoquistas da política contemporânea. Daí o sexo passa a ser uma metáfora para o sofrimento moral e físico que os políticos nos impõem todos os dias. É natural que as relações políticas e de poder entre os seres humanos sejam refletidas no sexo, no erotismo e, portanto, no cinema.

Beatriz Seigner: Eu ainda não o assisti, de modo que não teria muito o que comentar, a não ser que acredito que seu sucesso se deva pela mesma razão do livro - expor um tema ainda tabu em nossa sociedade: sexo e o prazer feminino.

Sobre o erotismo, qual é a melhor maneira de tratar e lidar com o erótico no cinema? Existe algum limite? 

Bolognesi: Para mim não existe limite algum. Vejo o erotismo com bons olhos, literalmente (risos). Para mim, mais saudável quanto mais feminino e mais repressor e atávico quanto mais pornográfico, que é um sexo de submissão do gênero feminino ao masculino. Violento, milenar e atávico. O erótico é outra coisa, tem encontro e não dominação. 

Mocarzel: Essa é uma questão complicada, pois o que é erótico para você talvez possa ser pornográfico para mim. Erotismo e pornografia, em primeiro lugar, são critérios muito subjetivos que estão atrelados a questões morais e éticas. Há quem diga que o erotismo está mais ligado a sugerir o ato sexual, sem mostrá-lo explicitamente, sempre investindo na imaginação de cada espectador, o que sempre vai tornar o seu filme mais potente sob o ponto de vista linguístico. Um dos maiores paradoxos do cinema, que sempre atormentou e estimulou nomes como o cineasta Robert Bresson e críticos e também diretores como Jean-Louis Comolli, é o seguinte: como sugerir a invisibilidade em uma linguagem tão explicitamente visível como a sétima arte? São questionamentos a serem levados em conta quando pensamos nos limites difusos que separam o erotismo da pornografia, e vice-versa. Como acredito que sejam conceitos muito subjetivos, como já disse, acho que a grande questão é dramatúrgica, ou seja, a coerência com que a estrutura narrativa é construída. Cineastas como Nagisa Oshima, Catherine Breillart, Bertrand Bonello, Lars von Trier e Dusan Makavejev, entre outros, são diretores que já enveredaram pelo sexo explícito com diferentes resultados. "Calígula", de Tinto Brass, e "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima, são dois títulos que explicitam o sexo. O primeiro faz de maneira tosca e o segundo nos provoca questionamentos profundos sobre sexo, prazer e morte. Acredito que a grande questão no campo do erotismo e da pornografia seja mesmo dramatúrgica.

Sacramento: O erotismo tem mil vertentes e cada uma delas tem seu público. Para um consumo massivo o cinema tende ao soft, que pode ser consumido abertamente e debatido no restaurante chique depois da sessão. Pequenas perversões são permitidas e desejadas, entram como tempero. De minha parte, o que me interessa é o erotismo libertário, aquele através do qual atropelamos freios morais e reconhecemos em nós mesmos um prazer e principalmente um desejo clamando por aflorar. 

Furtado: Acho que o erotismo no cinema não pode ter limites. Quem dá o limite é a cabeça do cineasta ou do roteirista. Como público, eu posso escolher sair do cinema ou não, se o erotismo do filme me agrada ou não.

Seigner: Acredito que nada é mais potente do que a imaginação do espectador. E, muitas vezes, esta potência erótica se encontra naquilo que está sugerido fora de quadro, nas sombras ou na reação daqueles que observam o prazer do outro.

Por fim, já falamos de alguns dos filmes no qual o erotismo foi captado com brilhantismo no cinema, mas gostaria de citar outro exemplo? 

Bolognesi: Já mencionei O último tango em Paris e 9 e meia semanas de amor. Gosto dos dois. E acho altamente erótico o filme Acima das nuvens, que está em cartaz. Erótico genial porque nem um beijo tem, mas é erótico no sentido vasto da palavra. 

Mocarzel: Aí vão alguns exemplos! Além do já citado "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima, "L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância" e "O Pornógrafo", de Bertrand Bonello, "Romance" e "À Ma Soeur", de Catherine Breillat, "Ninfomaníaca", de Lars von Trier, e "W.R. - Os Mistérios do Organismo", de Dusan Makavejev, entre outros. 

Sacramento: A obra-prima máxima ainda insuperável é O Império do Desejo, de Nagisa Oshima, o mais erótico e libertário longa-metragem de todos os tempos. O Último Tango em Paris é também inescapável e perturbador. No Brasil, urge redescobrir a obra de Walter Hugo Khouri, a começar por seu maldito e excelente Amor Estranho Amor, com Xuxa Meneghel e Vera Fischer.

Furtado: Gosto dos filmes do Bernardo Bertolucci, porque ele coloca afeto no erotismo. Almodovár filmou lindamente uma cena de sexo em Carne Trêmula, com planos muito inusitados, ângulos diferentes. E o filme 9 Canções do Michael Winterbottom tem cenas de sexo explícito, mas também têm afeto com as canções e na relação dos dois. Acho bonito quando o cinema mistura erotismo com afeto e o erotismo não está ali somente para chocar ou ganhar bilheteria, como me parece o caso de um Instinto Selvagem, por exemplo, que hoje não chocaria em nada. 

Seigner: Uma cineasta que faz isso muito bem é a Claire Dennis - em um de seus filmes, que não me lembro agora o nome, a personagem (e o público) literalmente arrepia e goza só com um homem, africano, sussurrando uma história em seus ouvidos, na cozinha de sua casa. Uma das cenas mais eróticas que já vi no cinema!

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