Cineasta rompe limites e vai além da imaginação com 'Avatar'

Cameron se consolidou como visionário e propõe um novo mundo e nova técnica com seu novo filme de ação

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

17 de dezembro de 2009 | 15h29

Cena de 'Avatar', de James Cameron. Foto: 20th Century Fox/Divulgação

 

SÃO PAULO - Você deve se lembrar de James Cameron, "king of the world", recebendo seus Oscars por Titanic. Foi em 1998 e há 12 anos - a produção era do ano precedente - Cameron não dava as caras. Onde andava? Há quatro, Cameron estava gestando Avatar, que começa a passar, em pré-estreia, às 18h30 de amanhã nos cinemas brasileiros. Na sexta, serão 612 salas de todo o País - 500 em 35 mm, 110 em 3D e duas Imax. Dê preferência às últimas, ou pelo menos às de 3D. Cameron conseguiu, mais uma vez.

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video Trailer de "Avatar"

Em 1981, quando fez Piranha 2, ele não chamou particularmente a atenção, mas com O Exterminador do Futuro, três anos mais tarde, algo se passou. Nos anos e décadas seguintes, Cameron se consolidou como visionário. Ele representa atualmente Hollywood como nenhum outro diretor e produtor (nem Steven Spielberg). Ousadia e excesso, e uma vontade inquebrantável de ampliar as fronteiras do cinema, além da imaginação.

Você terá de ver muitas vezes Avatar, se estiver interessado nos aspectos tecnológicos do filme de James Cameron. O cineasta propõe um mundo novo e uma técnica nova. Mas ele consegue, com tal propriedade, lançar o espectador na aventura que você estará ocupado demais com as emoções para ter distanciamento e avaliar o que vê, ou melhor, o que vive. Logo no começo, o recruta Jake Scully se integra a um grupo que realiza experiência extraordinária. Seu irmão foi morto e Jake o substitui, apesar das limitações. Ele voltou paralítico da guerra e agora enfrenta o desconhecido atraído por uma promessa - se tiver sucesso, ganhará as pernas de volta.

A experiência consiste em integrar um grupo enviado a Pandora, planeta cuja biodiversidade sugere uma Amazônia lançada no espaço e habitada por seres e feras exóticos. Você nunca viu nada parecido, nem quando Avatar parece repetir esquemas narrativos tradicionais de aventuras. Pandora possui em seu solo um metal valioso, que vale bilhões de dólares. A expedição tem um duplo aspecto, científico e militar. A cientista Sigourney Weaver desenvolveu o programa que permite transferir a mente de humanos como Jake Scully para o corpo dos humanoides que habitam o planeta (e que são chamados de na"vis). Esses humanoides são um prodígio de tecnologia digital, ampliando experiências que começaram com Peter Jackson, quando deu forma ao Gollum, na viabilização da saga de O Senhor dos Anéis.

Os na"vis têm três metros de altura, possuem rabo e os rostos alongados, mas, na essência, os olhos e a própria riqueza gestual são dos atores - Sam Worthinghton, Zoe Saldana. Os olhos são a janela da alma. Jake é instruído pelo general para se infiltrar entre os na"vis e passar-lhe as informações sobre eles. Mas o herói descobre na ligação desse povo com a floresta e na fêmea, Naityri, um outro mundo e outra possibilidade de vida, como os movimentos que recupera no corpo de seu na"vi. Já havia, no desfecho de Titanic, a possibilidade de interpretação de um sentimento religioso. Aqui, ele é mais forte. O filme narra a conversão de Jake Scully em seu avatar. Para chegar a isso, Cameron consumiu US$ 310 milhões de orçamento - um recorde que poderá chegar a US$ 500 milhões, com os custos de lançamento -, transformados em tecnologia de ponta numa narrativa de 160 minutos de duração.

No novo corpo de Jake, o espectador (re)descobre a aventura, mas isso é só parte do fascínio. Uma metáfora do espetáculo? Há uma ética da aventura, o imperialismo da era George W. Bush é criticado e a religiosidade - que está na base de tantas disputas geopolíticas no mundo atual - é interpretada. A política do filme é simples, mas não maniqueísta. O herói vive sua duplicidade como os personagens de Pedro Almodóvar em Abraços Partidos. No fundo, é disso que fala Avatar. Um grande abraço pelo cinema e por um mundo melhor e mais humano, como o que se discute em Oslo.

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