Cineasta prepara trabalho sobre "Os Ratos"

Em abril de 2000, Carlos Adriano, o diretor de Remanescências e A Voz e o Vazio - A Vez de Vassourinha, ganhou o título de Mestre em Cinema na Universidade de São Paulo. Seu orientador: Ismail Xavier. A dissertação: Um Cinema Paramétrico-Estrutural: Existência e Incidência no Cinema Brasileiro. Não é só nos filmes que faz que Carlos Adriano flerta com a vanguarda, portanto. O diretor é também, e fundamentalmente, um pesquisador.Remanescências é a prova disso. Embutido no filme de 18 minutos não deixa de estar o ponto final de uma polêmica que, durante muito tempo, dividiu os historiadores de cinema do País. Qual seria, ou é, o marco zero da cinematografia brasileira? O primeiro registro filmado no Brasil? Durante muito tempo, pensou-se que esse marco zero era o dia 19 de junho de 1898, quando um passageiro do paquete Brésil, vindo da Europa, filmou a Baía de Guanabara com sua ainda incipiente máquina de tomada de vistas.Seu nome: Alfonso Segreto. O próprio Paulo Emílio Salles Gomes afirmava que, naquele dia, nasceu o cinema brasileiro. Pesquisas mais recentes apontaram para outras filmagens, outros nomes. Carlos Adriano chegou ao de José Roberto Cunha Teles. Doutor em Direito e Medicina, em 27 de novembro de 1897 ele depositou no Arquivo Nacional, no Rio, anexados a um pedido de patente de privilégio industrial, os míticos 11 (onze!) fotogramas que Carlos Adriano descobriu e transformou na matéria de trabalho de Remanescências. Pense nisso: os filmes são projetados à razão de 24 quadros por segundo. Carlos Adriano resgatou 11 fotogramas, 11 quadros.Não mostram outra coisa senão uma onda do mar que bate num píer da Baía de Guanabara. Você pode achar que é um material escasso. Carlos Adriano usou-o de todas as maneiras possíveis e imagináveis e compôs um poema audiovisual de 18 minutos. O cinema, mesmo quando é rigorosamente experimental, pode ser puro encantamento. Remanescências que o diga.Para A Voz e o Vazio, ele se voltou para um sambista não menos mítico, que morreu quando tinha 19 anos. Sabe-se pouco sobre Mário Ramos, o Vassourinha. Era contínuo na Rádio Record e em 1935, iniciou a carreira como cantor. Formou dupla com Isaurinha Garcia e chegou a fazer cinema, integrando o elenco da comédia Fazendo Fita, de Vittorio Capellaro. Em 1941 foi para o Rio, prosseguir a carreira na Rádio Clube do Brasil e, no ano seguinte, morreu de ostiomielite, uma doença degenerativa que ataca os ossos. No seu curta documentário, Carlos Adriano não conta a história de Vassourinha. Ele até tem com Bernardo Vorobow o projeto de resgatar a memória do artista por meio de disco, livro e um documentário didático (que possivelmente não vai realizar, pois não é sua área de interesse).Usando raras fotos e as músicas de Vassourinha, Carlos Adriano retoma a vertente de Remanescências. Faz o que chama de "pesquisa estética" para desvendar a vida e a obra do artista. É seu projeto de cinema. Carlos Adriano gosta de escavar nas fontes da memória e depois trabalha seu material, sejam os fotogramas de Cunha Telles ou as 12 fotos e o registro sonoro de Vassourinha "com os procedimentos cinematográficos contemporâneos". Filmes como os que ele faz contribuem mais para o enriquecimento (e até redimensionamento) do cinema do que as toneladas de efeitos especiais com que Hollywood soterra o público de todo o mundo, todas as semanas. Até os americanos sabem disso. Os EUA já se curvaram a Carlos Adriano.O papa da pulp - O Brasil é que talvez ainda seja reticente ao talento de um de seus diretores mais ousados. Ele não se intimida. Além da adaptação de Os Ratos, em parceria com Décio Pignatari, admirador do livro de Dionélio Machado e um dos responsáveis (senão o grande responsável) pelo revival dessa obra-prima da literatura brasileira, prepara também O Papa da Pulp: R.F. Luchetti, que tem o sugestivo subtítulo de Faces e Disfarces. As iniciais R.F. referem-se a Rubens Francisco. Escritor, roteirista de rádio, cinema e histórias em quadrinhos, Luchetti é pioneiro do pulp de suspense e filmes de animação experimental, para os quais utilizou técnicas pioneiras. Carlos Adriano localizou 17 desses filmes. Vai trabalhar em cima deles, como fez com os 11 fotogramas de Cunha Telles e as 12 fotos de Vassourinha.Sua obsessão pelos números talvez sugira uma aproximação com o também experimental Peter Greenaway. Nada a ver. Ao voltar-se para Luchetti, Carlos Adriano busca de novo trabalhar as possibilidades, imensas senão infinitas, que a linguagem cinematográfica abre para ele, a partir de procedimentos minimalistas (fotogramas, fotos, matrizes de filmes que estão sendo restauradas). O diretor explica o que o atraiu em Luchetti: "Especializado em terror, policial e mistério, ele não se confinou nos limites estreitos do gênero e expandiu citações, paródias e jogos intertextuais." Criou heterônimos para desenvolver suas múltiplas atividades. Daí o subtítulo: Faces e Disfarces. Há um Brasil que se descobre no cinema de Carlos Adriano. Luchetti segue-se a Cunha Telles e Vassourinha como a nova (re)descoberta ou (re)valorização desse artista inquieto.

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