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Cineasta Philippe Garrel apresenta o método de amar em preto & branco

Diretor defende a relevância das histórias de amor em 'Lágrimas de Sal', em cartaz hoje no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

17 de dezembro de 2021 | 11h00

Ao saber pelo Estadão das exibições de Lágrimas de Sal no Festival do Rio, o diretor francês Philippe Garrel reage com um sorriso, ao saber que as projeções de seu mais recente longa-metragem são presenciais. “Vocês estão resistindo. Que bom!”, celebra o realizador de 73 anos, descrito na Europa como um fruto tardio da Nouvelle Vague, premiado em Cannes por Liberdade, A Noite  (1984) e Amante Por Um Dia (2017). 

Incluído pela revista Cahiers du Cinéma em seu ranking anual de Dez Melhores Longas, em 2020, Le Sel Des Larmes, título original do novo drama de amor do cineasta, fez sua estreia mundial na disputa pelo Urso de Ouro da Berlinale. Fiel à sua estética romântica, expressa em um preto e branco cada vez mais requintado, o longa atomiza a microfísica das idiossincrasias masculinas ao narrar os dilemas do estudante de um curso técnico de Carpintaria: Luc, vivido por Logann Antuofermo.

Sempre atento aos conselho de seu pai (André Wilms), Luc se apaixona por Djemila (Oulaya Amamra) em meio a uma mudança de cidade. Mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar. “Meus personagens são arquétipos da realidade, são traduções da nossa dificuldade diária em viver a paixão sem psicologizar cada gesto”, diz Garrel que explica seu método de trabalho nesta entrevista ao Estadão.

O que existe de político nas histórias de amor? O que há de político em 'Lágrimas de Sal'?

Philippe Garrel: O que me atrai a falar de amor é o meu interesse pela vida, organizado a partir de uma lição dos surrealistas, a partir das minhas leituras de André Breton, que mostrou que os sentimentos são moldados pela maneira como nos comportamos em sociedade. Li essa mesma lição em Freud. Eu falo do ato de amar pelo prisma do comportamento. O que existe de político nesse meu filme que está no Festival do Rio é uma reflexão sobre o racismo, na figura de Djemila. A diferença em relação ao estrangeiro é uma questão aqui. Mas ela surge numa história que fala de juventude.   

Como é que o senhor viabiliza o tipo de cinema radicalíssimo que o senhor faz? Como financiar uma história de amor em preto e branco onde a palavra é componente essencial?

Philippe Garrel: Meus filmes custam o equivalente ao preço de cerca de seis horas de película. Não filmo em digital. Eu rodo filmes com um tipo de película fabricada no leste da Alemanha, que foi muito popular no cinema russo. Filmo poucos takes de cada cena, sempre. E convido meus alunos do Conservatório Nacional de Teatro para trabalharem no meu elenco. O fato de ter pouca película para usar me obriga a ser preciso. Meus filmes são confeccionados quase que artesanalmente. Eu “fabrico” narrativas. E eu não tenho produtor. Eu me produzo. Quanto ao processo de lançamento, eu não me concentro nele. Apenas fico aberto a possíveis entrevistas, a falar sobre os filmes.

Como é falar do amor romântico em meio a todo acirramento dos debates de gênero e das patrulhas do politicamente correto? Em Berlim, houve uma acalorada discussão acerca da representação feminina em seus filmes. Como esses pleitos afetam sua forma de filmar?

Philippe Garrel: Vivemos uma época de perigo, mas é preciso desconstruir todos os muros que segregam homens e mulheres, sobretudo neste momento em que a França tem tantas boas realizadoras propondo um novo olhar sobre as relações. Eu adotei um homem como figura central de Lágrimas de Sal. Mas eu entendo essa história mais como uma reflexão sobre os jovens de hoje do que sobre questões de gênero.  

O senhor sempre falou da importância da Cinémathèque Française para a sua formação como diretor. Como senhor encara a tragédia do incêndio da Cinemateca Brasileira, em julho?

Philippe Garrel: Quando se vive com um chefe de estado que não ama a arte, a vida de quem cria é mais difícil. Mas é nesse momento em que a arte é essencial. Fico feliz em saber que vocês conseguiram realizar o Festival do Rio e de modo presencial, pois é importante seguir resistindo. Uma cinemateca é tão essencial para a formação do olhar quanto um museu é imprescindível para a construção da memória.

Neste momento em que os streamings vivem um boom, que futuro o senhor enxerga para a cultura cinéfila, essa que preserva tesouros audiovisuais em cinematecas e necessita de salas de exibição para difundir sua produção?

Philippe Garrel: Neste momento, os filmes mais recentes de Almodóvar e de Nanni Moretti estão em cartaz na França, em circuito. Cito dois dos grandes diretores de nosso tempo. Eles são uma prova de que o cinema de autor sempre vai encontrar o seu lugar, ainda que seja em uma galeria, ou diretamente numa cinemateca. O dilema que a gente vive hoje é saber onde eles vão ficar acessíveis. Mas desde que eu comecei, a produção autoral sempre passou por crises. E resistiu.

Que novas vozes autorais o senhor identifica hoje no cinema francês?

Philippe Garrel: Leos Carax é sempre uma figura singular, com uma produção poderosa. Mas temos Noémie Lvovsky, temos Arnaud Desplechin e temos Céline Sciamma, que vem fazendo coisas muito poderosas.

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