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Cineasta peruano Álvaro Delgado busca vaga no Oscar com 'Retablo'

Drama familiar explora tema ousado baseado numa atividade secular em seu país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 08h00

Limenho, Álvaro Delgado-Aparicio deixou o Peru por dois anos, para estudar psicologia em Londres. Pensava em especializar-se, mas começou a se interessar por cinema, e a escrever roteiros. Fez um curta que o levou a Sundance, e o próprio Robert Redford quis saber detalhes sobre sua formação. Impressionou-se, ao saber que era autodidata. Sua equipe exortou o garoto a credenciar-se a uma bolsa-oficina no Sundance Institute, para desenvolvimento de projeto. Surgiram 12 mil candidatos, 12 foram selecionados, entre eles Álvaro. O resultado estreou na quinta, 7, nos cinemas brasileiros.

Não representa pouco haver estreado Retablo com o longa sul-coreano vencedor da Palma de OuroParasita, de Bong Joon-ho – e, desde logo, habilitar-se para também ser um dos melhores filmes do ano. Retablo é sencillo (simples) e rico, o que não deixa de ser uma contradição, em termos. Uma história de pai e filho. O pai é um artesão renomado por seus retablos, espécie de caixas ou presépios que reproduzem cenas religiosas e/ou do cotidiano. O filho idealiza esse pai, até descobrir coisas, sobre sua intimidade, que dilaceram a veneração. O pai torna-se um pária aos olhos do filho, da mulher, da comunidade. Conseguirá o afeto, a compaixão, restaurar pelo menos alguma coisa do sentimento abalado, mas não de todo perdido?

Numa entrevista por telefone, de Lima, Álvaro Delgado-Aparício conta que foram anos de maturação do projeto. E que, antes de escrever o roteiro (com o também diretor Héctor Gálvez) e filmá-lo, ele se fazia três perguntas. O que ocorre quando idealizamos nossos pais, sejam o pai e a mãe? O afeto é capaz de resistir à decepção? E Álvaro sempre foi atraído pelo conceito artístico do retablo. A realidade recomposta e transformada em arte.

“Decidido a me aprofundar no assunto, fui para Ayacucho, centro-sul dos Andes, que tem a tradição de ser o centro ‘retablero’ do Peru. Descobri que nós, você, eu, teríamos a maior dificuldade para trabalhar, porque a arte de produzir retablos é familiar. Passa de pai para filho, e isso fortaleceu meu desejo de narrar um drama familiar.”

Álvaro sabe tudo sobre retablos. “Eles remontam a uma tradição que foi trazida pelos conquistadores espanhóis, e que os próprios ibéricos absorveram dos cruzados. Como altares móveis ou recriação de relatos bíblicos, eram carregados por cavaleiros e religiosos, e foram integrados ao esforço de evangelização das populações indígenas. Na época dos confrontos entre o Exército e o grupo maoísta Sendero Luminoso, Ayacucho foi muito visada e a confecção de retablos esteve ameaçada justamente por estar ligada a uma tradição que os grupos revolucionários combatiam.”

E mais – Ayacucho é uma comunidade fechada. As mudanças comportamentais não apenas não chegaram ao lugar, como não são aceitas. O sexo é um tema tabu, o homossexo – a homossexualidade – é praticamente inimaginável. E se a descoberta que o filho faz sobre seu pai tiver a ver com isso?

Retablo circulou um ano inteiro por festivais. Ganhou prêmios, elogios. No Peru, estreou em maio. Ninguém botava muita fé – um filme falado em quêchua seria rechaçado pelo público de shopping, em Lima. Não foi. O público compareceu, acendeu-se um debate sobre esse tema, que a alguns (muitos?) parecia vergonhoso, pela falta de informação. “Foi muito estimulante abrir esse debate. O cinema pode e deve contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas. Não digo que filmo para mudar o mundo, o que poderia parecer pretensioso. Mas se eu contribuir para que uma pessoa, ao menos, compreenda a dor do outro, já terá valido a pena.”

Álvaro trabalhou com Magaly Solier, de La Teta Asustada, a mais conhecida atriz do país. Amiel Cayo interpreta Noé, o pai, e Júnior Béjar Roca, de 14 anos, faz o filho, Paucar, também chamado de Segundo. Roca é estreante, natural de Ayacucho. Revela profunda compreensão do personagem, e do filme como um todo. “Trabalhamos com todo cuidado e dedicação, como se o próprio filme fosse um retablo, exigindo nossa capacidade de observação e uma dedicação de ourivesaria”, define o diretor.

Para Álvaro, filmes como A Teta Assustada ou O Leite da Amargura – como se chamou no Brasil -, de Claudia Llosa, ou o dele próprio, representam algo muito forte na nova geração do cinema peruano. “Não sei até que ponto espectadores de fora percebem isso, mas são filmes que nascem de um projeto, consciente ou inconsciente, não importa, de regeneração. Ao abordar temas como estranhamento, pais e filhos, perda, abandono e exílio, sinto que olhamos para esse país que foi dividido, fraturado nas guerras dos anos 1980 e 90, como que em busca de uma reconciliação.”

O filme participou da mostra Generation, na Berlinale do ano passado. Há exatamente um ano, integrou a programação da Mostras Internacional de Cinema, e Álvaro Delgado-Aparício esteve na cidade, para apresentar seu filme e debatê-lo com o público. A simplicidade não esconde a elaboração nem a sofisticação – Álvaro e seu diretor de fotografia, Mario Bassino, constroem o tempo e o espaço por meio de planos-sequência muito bem filmados e iluminados. “A técnica é fundamental, mas não queríamos chamar muita atenção, para servir à história”, esclarece. Começa com o filho descrevendo uma cena que será tema de um retablo, para o pai.

Com economia de meios, tudo já é dito – o afeto, a dedicação, o trabalho. Todo um mundo irá se destroçar. Destruir para recomeçar. Para reerguer-se. Retablo é belíssimo. Para sua informação, o filme é o candidato do Peru a uma vaga no Oscar, concorrendo com A Vida Invisível, de Karim Anouz, e Parasita. Álvaro termina o novo roteiro. Outra história de família, agora de mãe e filha, e na selva peruana. Ou seja, com sua arte, ele está mapeando o país.

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