Arquivo Estadão
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Cineasta Nelson Pereira ganha novo box com os 'filmes de Paraty'

Caixa com 5 discos dá destaque aos longas rodados na cidade fluminense

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 19h46

Muito interessante esta segunda caixa de DVDs dedicada à obra de Nelson Pereira dos Santos. Quatro dos cinco discos de Volume 2: 1968 a 1973 contêm os filmes realizados no “exílio de Paraty”, quando Nelson e seu grupo de amigos, artistas e técnicos se abrigaram na cidade do litoral fluminense, hoje sede da Flip, a festa literária de Paraty. São eles: Fome de Amor (1968), Azyllo Muito Louco (1969), Como Era Gostoso o Meu Francês (1970) e Quem É Beta? (1972). De modo geral, são filmes metafóricos e de caráter experimental. Completa a caixa O Amuleto de Ogum (1974), que já adota outro registro.

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Talvez o mais belo desses filmes seja Fome de Amor, que se refere, de forma indireta, ao fracasso da luta armada como forma de resistência ao golpe civil-militar de 1964. Duas atrizes, Leila Diniz e Irene Stefânia, destacam-se na bela fotografia em preto e branco de Dib Lutfi (que faz também a câmera). A história intimista, mas política, reúne dois casais numa ilha deserta, e tem também locações em Paris e Nova York.

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Do ponto de vista estilístico, é o mais apurado desse período da obra de Nelson Pereira. Lembre-se que ele havia saído da aclimatação brasileira do neorrealismo italiano (com Rio 40 Graus e Rio Zona Norte) e chegado ao realismo crítico de sua obra-prima, Vidas Secas (1964), adaptado de Graciliano Ramos. Nesse meio tempo, havia passado o entusiasmo revolucionário dos primeiros tempos e, com o “golpe dentro do golpe”, a linha dura havia vencido, impondo uma ditadura sem concessões ao País através do Ato Institucional n.º 5.

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Com o clima fechado de vez, era preciso continuar a viver e a fazer cinema, mas de outra maneira. Donde o “exílio” em Paraty e o discurso alegórico, que atendia tanto às necessidades de driblar a censura como entrava em sintonia com o clima da contracultura, o popular “desbunde”, substituto do fervor revolucionário de antes.

Nesse sentido, Azyllo Muito Louco adota uma alegoria forte, às vezes cifrada demais, baseada na novela O Alienista, de Machado de Assis. O filme, que pretende falar de maneira enviesada sobre seu momento histórico, em sua revisão acaba caindo como luva para o Brasil contemporâneo, judicializado e policialesco. Para quem não lembra, a história de Machado era a de um médico psiquiatra, o fanático doutor Simão Bacamarte, que, à força de considerar todos loucos, acaba internando a população inteira de Itajaí no hospício chamado de Casa Verde. Até se dar conta de que, nesse caso, louco deveria ser ele, e os outros, sãos. Isso posto, liberta todo mundo e interna-se a si mesmo.

Na época do filme, Nelson louvava o sentido de ironia de Machado de Assis e sua capacidade de, com uma simples história, resumir toda a insanidade de uma época. Pareceu ao cineasta muito adequada para definir um tempo em que todo brasileiro passara a ser suspeito de alguma coisa e poderia ser “internado” em algum órgão policial a qualquer momento, sem possibilidade de defesa e sem qualquer garantia de retorno ao convívio dos seus.

Em Como Era Gostoso Meu Francês, Nelson abandona, por um tempo, sua veia alegórica e passa a um registro mais realista. A alegoria, método de dizer uma coisa por meio de outra, era, entre tantas virtudes, uma maneira prática de burlar os censores. Sem alegorias, Como Era Gostoso teve de enfrentar as tesouras dos funcionários federais. No Brasil colônia, um aventureiro francês (Arduíno Colasanti) é aprisionado pelos índios. Consegue adiar a morte por seus conhecimentos de artilharia, que interessam aos indígenas. Mas estes já preparam o banquete, tendo o gringo como prato principal do menu.

Quem É Beta? é uma aposta internacional (Brasil-França) num gênero de pouca tradição no País, a ficção científica. Na história, pós-apocalíptica, há uma guerra nuclear e os contaminados pela radiação são eliminados pelos que têm maiores condições materiais. Figuração - óbvia - da velha luta de classes, num ambiente de holocausto. Enquanto isso, um casal tenta sobreviver, mas o convívio é perturbado pela chegada de uma estranha mulher. Destaque para a presença da bela atriz Regina Rosemburgo, que morreu num acidente aéreo um mês após a estreia do filme.

Em O Amuleto de Ogum, Nelson volta-se para a necessidade de um cinema mais popular, que fale a língua da maioria dos espectadores. Projeta sua trama na Baixada Fluminense, no ambiente do jogo do bicho e dos terreiros de candomblé. Seu próprio filho, Ney Sant’Anna, interpreta um dos principais personagens. O filme indica também uma relação mais orgânica do diretor com a cultura brasileira, olhada até então com certo distanciamento.

Muitos extras enriquecem esta caixa de DVDs. O próprio Nelson dá breves, preciosos e francos depoimentos sobre as filmagens de suas obras. Incluem-se alguns curtas do diretor como A Missa do Galo (outra de suas adaptações machadianas) e O Rio de Machado de Assis. E há depoimentos interpretativos como o do professor Wagner Neves Rocha sobre a religião popular em O Amuleto de Ogum.

DEPOIRMENTOS DO DIRETOR

Fome de Amor

"Passei uns meses nos Estados Unidos e entrei em contato com a juventude que era contra a Guerra do Vietnã e também com os cineastas do underground. Na volta ao Brasil, fui obrigado a fazer o filme, pois já havia me comprometido com o produtor. Como não gostava do romance do Guilherme de Figueiredo, passei a inventar tudo e a fazer daquilo uma experiência estética radical"

Amuleto de Ogum

"Foi como pagar uma dívida antiga em relação às religiões populares. Quando filmei Rio 40 Graus, eu via os despachos quando subia o morro, mas minha câmera não registrava. Achava a religião algo alienante, fora da realidade. Com o passar dos anos, com a experiência e a vivência no Rio de Janeiro, percebi que a religião faz parte da nossa realidade e, portanto, precisa ser registrada pelo cinema, mesmo que de ficção"

COLEÇÃO NELSON PEREIRA DOS SANTOS VOLUME 2: 1968 - 1973 

Bretz Filmes (Rimo)

R$ 165,90

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