Cineasta iraniano discute a democracia

Babak Payami talvez seja o maiscosmopolita dos diretores iranianos da nova geração. Tem 36 anose assina O Voto É Secreto, que estréia nesta sexta-feira. É seu segundofilme. Payami nasceu no Irã, mas sua família deixou o país naépoca do xá Mohammed Reza Pahlevi. Morou no Afeganistão e noCanadá, tendo estudado cinema na University of Toronto. Depoisde quase duas décadas, ele voltou ao Irã para desenvolver suacarreira de cineasta. "Nunca perdi minhas raízes, carrego o Irãcomigo onde for", disse numa entrevista por telefone, de Teerã.Lembra que esteve em São Paulo, na Mostra Internacional deCinema do ano passado. Veio para a apresentação de O Voto ÉSecreto. Ficou pouquíssimo tempo aqui. Passeou sozinho pelaPaulista, ninguém se preocupou em entrevistá-lo.Foi pena. Payami é um cara que tem o que dizer. Fala com extremadesenvoltura sobre seu belo filme, que recebeu diversos prêmiosem 2001, nos Festivais de Londres, Roterdã e Veneza. Explica que, mais do que o confronto entre dois personagens que representama modernidade no Irã, quis falar sobre o próprio conceito dedemocracia nas sociedades atuais. "Acho que o que digo éparticularmente importante para países como o seu, o meu ou aArgentina, aí ao lado." O que vem a ser a democracia, nestenovo mundo globalizado? De que maneira ela consegue serrepresentativa, se a única liberdade de que as pessoas dispõem,hoje, é a de escolher e, assim mesmo, é uma escolha induzida?Payami tem consciência de estar falando num país periférico eque exerce uma resistência a essa globalização. Quer retratar oque se passa em seu país. "É uma sociedade religiosa econservadora _ mais do que isso, repressora _, mas é o meu país eeu o amo", diz. Foi assim que começou a surgir para ele ahistória da urna que cai do céu, para espanto do soldado quecumpre suas funções numa praia deserta. Logo em seguida, chega afuncionária da Justiça Eleitoral encarregada de recolher osvotos das pessoas da comunidade ali próxima. O soldado aacompanha. Não será um dia como os outros, nem para ele nem paraela.Inspiração - O diretor admite que se inspirou em romances do fimdo século 19 e também nas comédias de relacionamentos queHollywood produzia às dezenas, nos anos 1940 e 50. Payami viumuitos desses filmes no Canadá. O rapaz encontra a moça,estabelece-se a chamada guerra dos sexos. Por meio dasdiferenças, a garota, que representa um mundo em processo demudança, e o rapaz, ligado a uma estrutura mais rígida, aprendema conhecer-se. Se não ocorre o típico romance, há uma químicaentre eles. E tudo ocorre numa ilha, para expressar melhor esseisolamento do Irã. "Interessava-me quebrar esse isolamento,mostrar de que forma a mudança chega pelo mar."Não há nada em O Voto É Secreto que tenha sido deixado aoacaso. O filme foi completamente escrito, muito pensado. Cadacoisa ali dentro tem um sentido. Se Payami optou por atores nãoprofissionais foi porque achou que eles serviam bem aos papéis etambém porque lhe permitiam desenvolver um humor que consideraessencial ao projeto. Não houve improvisação nenhuma por partedesses atores. Payami acha que sua visão da mulher é muitoparecida com a de Jafar Panahi, o diretor de O Círculo. "Éum grande amigo meu", revela. "Dizemos as mesmas coisas porvias opostas." A mulher iraniana pode ser vítima de estruturaopressora e patriarcal. É vítima, mas não passiva. "Cada vezmais as mulheres do Irã tomam consciência de seus direitos; nãoé fácil vencer uma tradição secular, baseada na religião, mas asiranianas certamente não estão paradas." Foi o que ele tentoumostrar em O Voto É Secreto.Além de amigo, é admirador de Panahi e Mohsen Makhmalbaf, queforneceu a idéia original para O Voto É Secreto. Tem o maiorrespeito por Abbas Kiarostami, mas nada disso o impede deconsiderar que o maior nome de toda a história do cinema do Irãé um autor ainda pouco conhecido no Brasil: Sohrab Shahid Haifen, que morreu há cinco anos. Reconhece que não é só a sociedadeiraniana que está em mutação: o cinema, também. Basta compararos primeiros filmes iranianos que fizeram sucesso fora do país,há 15 anos, com os trabalhos mais recentes de Panahi ouKiarostami.Os filmes mais antigos, de fundo neo-realista, quase sempreusavam crianças para expressar a realidade do país. Nada maisnatural: metade da população do Irã é formada por jovens e aprimeira grande financiadora do novo cinema iraniano foi umafundação ligada à criança. Eram filmes mais simples, até líricos, mesmo que essa simplicidade fosse muitas vezes estudada. "Hoje, as ricas estruturas narrativas dos filmes de Jafar e Abbasmostram que está havendo uma evolução." Relaciona isso àcensura no país. "Antes era possível dribá-la com aquelasnarrativas sobre crianças; hoje a censura está mais atenta,mesmo quando age de forma mais velada; isso nos força a nostornarmos mais maduros, fazendo filmes mais complexos."Serviço O Voto É Secreto (Raye Makhfi). Drama. Direção de Babak Payami.Irã-It/2001. Duração: 105 minutos. 12 anos.

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