Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Cineasta Felipe Bragança fala de seu 'Não Devore Meu Coração'

Filme foi um dos destaques no Festival de Sundance deste ano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2017 | 03h00

Quando conversou com o repórter, pelo telefone, na sexta-feira, 20, Felipe Bragança já estava em Sundance, feliz da vida por estar apresentando seu novo filme na mostra competitiva do festival de Robert Redford. Na noite anterior, o festival fora inaugurado pelo próprio Redford que, aos 80 anos, continua o motor do evento, reconhecido como o mais importante encontro indie do mundo. Mas Redford, mesmo emprestando seu prestígio, não participa mais da seleção. Está totalmente entregue ao Sundance Institute, que, entre outras coisas, viabiliza coproduções e realiza cursos e intercâmbios para formação e aprimoramento de profissionais. “E ele permanece rijo. É uma figura carismática”, avalia Bragança.

O filme que ele mostra no festival é sua primeira experiência solo. Os anteriores foram feitos em parceria com Marina Meliande, que permanece como produtora. Não Devore Meu Coração ganhou um acréscimo ao título ¬ em inglês: Não Devore Meu Coração, Garota Crocodilo. A primeira exibição foi no domingo, 22, seguida de debate com o público.

Bragança enviou uma mensagem por e-mail. “A sessão foi na sala mais tradicional do festival, o Egyptian Theater, que estava completamente lotada. Muitas palmas no final e ótima conversa com o público. Um prazer trazer um pouco da história latino-americana para o Sundance.” Cauã Reymond, que faz o protagonista, arranjou um tempo e esteve presente. Em fevereiro, Não Devore será um dos dez títulos - um recorde - da seleção brasileira no Festival de Berlim. Vai passar na mostra Generation, mas desta vez Cauã talvez não possa ir. Já está totalmente imerso no próximo filme de Cláudio Assis.

Felipe Bragança exibiu curtas e esteve em Berlim como corroteirista de Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, mas esta é sua primeira participação com um longa na Berlinale. “Teremos todos esses filmes brasileiros, incluindo Joaquim, de Marcelo Gomes, na competição. Não me lembro, ou melhor, nem sei se houve um começo de ano como este para o cinema do Brasil. Estamos com representantes nas mostras competitivas de três importantes festivais. O Marcelo, em Berlim; Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, em Roterdã; e eu, em Sundance.” Também estarão em Berlim Daniela Thomas (Vazante) e Júlia Murat (Pendular) no Panorama, João Moreira Salles (No Intenso Agora), na mostra de documentários; A Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira, e As Duas Irenes, de Fábio Meira, na Generation; e O Rifle, de Davi Pretto, no Forum, mais dois curtas.

Foram cinco anos de trabalho. Diretor de A Fuga da Mulher-Gorila e A Alegria, obras que possuem uma pegada fantástica e poética, Bragança desta vez investiga o Centro-Oeste brasileiro. Seu filme passa-se na fronteira com o Paraguai, inspirado em dois contos de Joca Reiners Terron. “Um deles trata do romance proibido entre um casal de jovens e o outro é sobre uma gangue de motoqueiros. Achei uma maneira de fundir as duas histórias numa só. Cauã vive esse romance e integra a gangue que se envolve nas disputas por território na fronteira.” 

A fronteira não delimita apenas espaços externos. Também existe a fronteira das almas, que se presta ao exercício interior. Na fronteira paraguaia, passam-se pelo menos dois filmes míticos brasileiros - Selva Trágica, a obra-prima de Roberto Farias, e Os Matadores, o primeiro longa de Beto Brant e que seria, até hoje, o melhor filme do autor, se ele não tivesse correalizado com Camila Pitanga o genial documentário sobre o pai dela, o ator Antônio Pitanga.

Entre 2013 e 14, Bragança esteve sediado na Alemanha por seis meses, integrando o Berliner Kunztlerprogramm, com o qual o governo alemão abriga artistas estrangeiros para o desenvolvimento de projetos.

 

“Artistas que admiro muito, como Claire Denis, Jim Jarmusch e Karim também já participaram desse programa, que não é uma coisa nova. Existe desde os anos 1960.” De cara, enquanto escrevia, ele pensou em Cauã Reymond para o papel.

 

Convite. Ficaram acertados e um dia Cauã ligou para dizer que havia sido convidado para fazer outro filme de motoqueiro. “Eu lhe disse que, por mim, não tinha problema, porque o meu filme seria diferente. Não é um relato de ação, como o Reza a Lenda (de Homero Olivetto). Quem acompanha meu trabalho sabe que dialogo com gêneros, mas sempre de uma forma poética, que é a minha pegada autoral. Até achei legal que o Cauã fizesse o outro filme antes, porque aprendeu a lidar com a moto. Para mim, foi uma experiência nova. Dirigir todos aqueles motoqueiros, mas sempre com a preocupação de permanecer fiel ao meu jeito.”

 

O filme tem a cara do Brasil, e da América Latina. “A violência da disputa por território remete à situação colonial, abordada nos filmes do Marcelo e da Daniela.” Ainda sobre Sundance, Bragança informa que o debate político está fervendo. “No sábado, houve uma manifestação de mulheres contra o presidente (Donald) Trump organizada por Salma Hayek.”

 

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