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Cineasta e escritor discordaram sobre roteiro de 'Cabíria'

A figura de diretor de cinema não existia quando Pastrone embarcou no projeto

João Villaverde, Enviado Especial - Turim - O Estado de S.Paulo

21 Abril 2014 | 11h07

Músico autodidata e construtor de violinos, o italiano Giovanni Pastrone não poderia imaginar, no início de 1914, que 'Cabíria', o filme que terminara de dirigir e montar, prestes a estrear em seu país, viria a ser objeto de adoração de cineastas que, muitos anos depois, prestariam homenagem a ele. O americano D.W. Griffith, considerado o “pai do cinema” por mestres da arte tão diversos como Charles Chaplin, Sergei Eisenstein e Glauber Rocha, partiu para os grandes épicos (como O Nascimento de uma Nação, de 1915, e Intolerância, de 1916) após assistir, diversas vezes, a Cabiria, longa que Pastrone concluiu há 100 anos.

Não foi um processo simples rodar Cabiria. A figura de diretor de cinema não existia quando Pastrone embarcou no projeto de retratar as Guerras Púnicas em Turim, nos Alpes, na Sicília e na Tunísia. Além de arregimentar atores e atrizes, Pastrone também precisou negociar a trilha sonora com o compositor Ildebrando Pizzetti, e também coordenar a criação do “carello” – estrutura móvel que permitia a câmera percorrer um trecho e, assim, seguir o avanço das personagens.

Conhecida desde então como técnica do travelling, o esquema foi criado por Pastrone e seu câmera, o espanhol Secondo do Chomón, que também desenvolveu a cena de erupção do vulcão Etna. Surgia assim um dos primeiros efeitos especiais do cinema.

Mas foi com o poeta, escritor e militante político Gabrielle D’Annunzio com quem Pastrone mais gastou tempo. Contratado para escrever o roteiro de Cabiria, D'Annunzio era, possivelmente, o homem mais famoso da Itália naquele momento – e uma das personalidades mais conhecidas da Europa.

Em cartas trocadas entre Pastrone e D’Annunzio, mantidas no arquivo do Museu Nacional do Cinema em Turim e às quais o Estado teve acesso, fica claro o clima criado pelo escritor com o cineasta. Em correspondência de 11 de agosto de 1913, D’Annunzio pergunta sem rodeios: “Diga-me se para o argumento é útil uma certa difusão descritiva que possa entrar em contradição com uma cláusula do contrato que concebe total liberdade de execução do filme” (em tradução livre do italiano). Entre junho de 1913 e abril de 1914, quando Cabiria finalmente ficou pronto e foi lançado, há dezenas de correspondências com Pastrone negociando alterações no texto de D’Annunzio.

“D’Annunzio foi o último grande escritor a ter poder, fama e influência cultural e política, características que nem Ernest Hemingway e Gabriel García Márquez conseguiram ter. Sua força na sociedade italiana era impressionante e, naquele período, D’Annunzio era uma espécie de Steve Jobs: um exemplo de sucesso”, disse o professor Alexander Stille, da Universidade de Columbia (EUA). De descendência italiana, Stille escreveu o prefácio do primeiro livro de D'Annunzio, Prazer (1889), relançado no ano passado nos Estados Unidos.

D’Annunzio seria um dos principais artífices da entrada da Itália na 1ª Guerra Mundial, em 1915, onde participaria ativamente como piloto de aeronaves e perderia um olho em combate. Mais tarde, em 1919, sua retórica radical nacionalista serviria de gatilho para a criação do fascismo – naquele ano, o poeta também lideraria um grupo de extremistas na invasão do Fiume, região separatista da Croácia.

Já Pastrone viria sua paixão pelo cinema ser solapada pelas guerras e pelo fascismo, mas ele ainda viveria para ver Federico Fellini homenagear sua obra-prima em Noites de Cabiria (1957), dois anos antes de falecer. O Estado, em 1959, registrou o falecimento do “grande diretor de Cabiria”. 

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