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Cineasta do Mali, Souleymane Cissé ganha mostra com curtas e longas e documentário

Tem início, nesta quarta-feira, 18, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, uma retrospectiva do grande cineasta do Mali

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2018 | 06h00

Há uma consciência social e política que percorre a obra do cineasta do Mali Souleymane Cissé. Tem a ver com sua formação. Islâmico, ele estudou na vizinha Dacar, já no Senegal, e só voltou para casa depois de consolidada a independência. Cinéfilo, quis também ser diretor e foi estudar na antiga URSS. Voltou disposto a fazer cinema engajado, mas no centro do seu cinema está sempre a angústia existencial do indivíduo, mesmo que, muitas vezes, as pessoas não tenham consciência do mal-estar que lhes devora a alma.

Começa nesta quarta-feira, 18, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, uma retrospectiva do grande cineasta do Mali. Nascido em Bamako, capital e maior cidade do Mali, Souleymane Cissé completou 78 anos em abril. Em seu Dicionário de Cinema, Jean Tulard o coloca no mesmo plano de Ousmane Sembène, do Senegal, e de Idrissa Ouédraogo, de Burkina Faso, como um dos mais importantes cineastas africanos.

A programação não exibe a totalidade da obra do diretor. Propõe cinco de seus filmes, entre curtas e longas, mais um documentário sobre ele. Para tornar ainda mais atraente a programação de abertura, a professora e pesquisadora Janaína Oliveira, do Instituto Federal do Rio, fará a apresentação do longa desta noite, Yeelen – A Luz, e após a projeção debaterá com o público o filme que recebeu o Grande Prêmio Especial do Júri em Cannes, 1987.

+++ As palavras que escapam da tela: Trânsito intenso entre a linguagem cinematográfica e a literária provoca lançamento de tese e ensaio

Está sendo uma semana gloriosa para Janaína. Ontem à noite, no Rio, ela participou de outra homenagem, a Ouédraogo. Dois dias seguidos, apresentando para públicos diversos, em diferentes cidades, o grande cinema africano, é motivo de extrema felicidade para ela. “Mais do que um interesse por esse ou aquele cineasta, mas esses dois são importantíssimos, meu interesse é pelo cinema africano e pela formação de público. O Brasil é um país que tem uma imensa população negra, mas desconhece o cinema que se faz nas origens. Somos colonizados (por Hollywood). É preciso um outro olhar para essas cinematografias e diretores.” Para isso, ela é uma das idealizadoras do Fórum Itinerante de Cinema Negro.

O próprio Cissé, em sua evolução pessoal e artística, criou, de forma muito elaborada e consciente, uma carteira de imagens e histórias que fogem aos estereótipos criados durante as dominações culturais. 

O garoto do primeiro longa de Cissé, Cinco Dias de Uma Vida, de 1972, abandona a escola e vive de pequenos roubos nas ruas da cidade. Até para exercer o ofício, ele precisa observar e essa riqueza de observação faz a poesia especial, surreal do filme. É outro tempo, não o do cinemão.

Após um longo arco, em 2009 surge Tell Me Who You Are, sobre uma mulher – Madame Bovary do Mali? – que não aguenta mais a vida de casada, o marido. Ela tem um amante, mas, em vez de partirem, criam um triângulo asfixiante. Entre esses extremos, Cissé realizou curtas e outros seis longas.

Tornou-se, senão um habitué, um autor respeitado em Cannes. Den Muso/A Garota, de 1975, é sobre uma garota muda que foi estuprada e é rejeitada pela família e pelo homem que abusou dela. O filme provocou escândalo e Cissé chegou a ser preso pelas autoridades, sob a acusação de haver aceitado recursos franceses para fazer a obra.

Novo escândalo em 1982, com Finyé, O Vento, sobre a insatisfação da juventude do Mali. E depois, Yeleen, considerado sua obra-prima. O rito de passagem, uma história sobre o despertar para a vida (e o sexo). Um jovem com poderes mágicos parte em busca do sentido da vida. Encontra uma hiena que lhe revela como se tornar um guerreiro. Não é uma animação da Disney. É outra cultura, outro mundo – encantado – que o IMS vai revelar para muita gente.

O evento no IMS traz ainda os longas Baara – O Trabalho e O Vento, além de curtas. E também o documentário que Rithy Panh fez sobre o cineasta. Só esse filme já merece atenção especial, e isso pelo histórico de documentarista do diretor – também grande – do Camboja. Ao investigar vida e obra de Cissé, ele aborda o colonialismo europeu na África.

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO: 

Fontes de Inspiração - Curta de 1968 

Cantores Tradicionais das Ilhas Seychelles - Curta de 1978 

Baara – O Trabalho - Longa de 1978

Finyé – O Vento - Longa de 1982 

Yeelen – A Luz - Longa de 1987

Cineastas do Nosso Tempo – Souleymane Cissé - Documentário de Rithy Panh, 1990

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