Cineasta descobre tradições do Nordeste

Assim como muitos de sua geração, o carioca Andrucha Waddington cresceu acreditando que os festejos juninos eram ocasiões em que se fantasiava de caipira para comer milho cozinho em festas como as promovidas pelo pai, em Teresópolis. Todo um novo mundo de tradições culturais, no entanto, começou a se revelar ao jovem cineasta e publicitário quando procurava locações para o seu segundo longa, Eu Tu Eles, rodado no interior do Ceará e lançado há dois anos. O baiano Gilberto Gil, que assinou a trilha sonora do filme e excursionou com Andrucha pelo Nordeste durante a sua promoção, atiçou ainda mais a sua curiosidade sobre as festividades. E é com entusiasmo de criança que o diretor de 32 anos se prepara para entregar ao público o resultado desse "processo de descoberta", o documentário Viva São João!, que será exibido no festival É Tudo Verdade (sexta, no Rio, e sábado, em São Paulo) e compete pelo troféu Passista do Festival do Recife (dias 22 a 28) antes de chegar aos cinemas, em junho. São 77 minutos de música e imagens que pretendem condensar o sabor e a emoção de uma festa enraizada no coração do nordestino. "Aqui, as festas juninas são encenadas de modo caricatural. No Nordeste, é um evento que nasce da celebração do povo e para a qual ele não precisa de nenhuma vestimenta especial", explica Andrucha. Gilberto Gil funciona como o guia da viagem sertão adentro - as filmagens, ocorridas durante os festejos juninos do ano passado, coincidiram com uma excursão do cantor e compositor pelo Nordeste. No final das contas, Gil até acabou atuando como co-produtor do filme. Mas é a música e a memória de Luís Gonzaga que acabam tomando a dimensão de protagonista de Viva São João!. "Talvez ele tenha sido o maior responsável pela divulgação do forró e do baião no Sudeste do País. Até o surgimento de Gonzagão, o forró era um gênero visto como maus olhos no Sudeste. Assim como o samba o fora décadas antes. Luís Gonzaga está para as festas de São João como a fogueira e os quitutes de milho. Nada mais natural que as letras de suas canções acabassem virando o grande narrador do filme", explica o diretor. Composições que se tornaram clássicas na voz de Gonzagão, como Mulher Rendeira, Respeita Januário, Pisa na Fulô e A Feira de Caruaru, ilustram e animam entrevistas com gente do povo e brincadeiras e rituais típicos da época, como o casamento na roça, os jogos com fogos de artifício e novenas. O elenco de intérpretes mistura anônimos, como Chiquinha Gonzaga, irmã do cantor, a participações especiais de Moraes Moreira, Elba Ramalho e Alexandre Pires, Dominguinhos e Sivuca. Não é à toa que grande parte das toneladas de equipamento que voaram por seis Estados e 19 cidades com a equipe de filmagem tinha como finalidade garantir a qualidade da banda sonora. "É pela música que se chega à emoção daquele povo", justifica o diretor. A estrada que a equipe liderada por Andrucha percorreu cobre um roteiro de visitas pré-organizado por Flora Gil, mulher de Gilberto Gil. Foi feita em 15 dias, o tempo em que duram as festividades sagrado-pagãs que comemoram a fartura da colheita na região. O cronograma apertadíssimo ajudou a acirrar velhos hábitos do diretor, como o de roer unhas e fumar. Mas ele conseguiu extrair momentos de genuína espontaneidade, como a conversa entre Chiquinha Gonzaga e Gilberto Gil no carro que os conduzia a Exu - a primeira visita dela à cidade natal de Gonzagão em dez anos. "Quando percebi que aquele papo poderia render algo interessante, mandei ligar a câmera", lembra. Mais adiante, Chiquinha e Gil engrenam um dueto a capela, em outro momento emocionante. A beleza pode vir também de momentos de composição plástica, nem que para atingi-los a equipe tivesse de se proteger com luvas, capacete e gibão (colete de couro que ajuda a resguardar o corpo do sertanejo contra a vegetação espinhosa), como durante o registro do duelo de fogos de artifício, que reproduzem confrontos de espadas medievais. "A sensação é de que você está no meio de uma guerra. Demoramos cerca de 16 horas para mixar o som daquela coreografia. Queríamos envolver o espectador naquela batalha", diz Andrucha. Pode-se dizer que Viva São João! é uma cria direta de Eu Tu Eles. Ou mesmo uma forma de se aprofundar a relação de admiração e curiosidade pela cultura do interior de um cineasta fundamentalmente urbano. "Foi muito bom voltar ao Nordeste, particularmente àquela celebração." Serviço Viva São João. De Andrucha Waddington. Br/2002. Duração: 77 minutos. Sábado, às 22 horas. Grátis. CineSesc. Rua Augusta, 2.075, tel. 3082- 0213

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