Cineasta capta histórias e trilhas do velho Chico

Eventualmente, as lavadeiras quecantavam loas enquanto lavavam roupas nas águas do Rio Franciscosubstituíram o canto de trabalho por outro - canções religiosaslevadas até lá pelas igrejas (as evangélicas, principalmente)que vão substituindo a cultura popular, secular, até bem poucotempo mantida quase intocada.Mas a lembrança daqueles cantares ancestrais não seperdeu. Não de todo. E, enquanto é possível, é precisoregistrá-la. A lembrança dos cantos e também das festas, dasdanças, dos ritos religiosos, das vestes, da arquitetura, doshábitos alimentares, das crenças. O cineasta Marcus ViniciusCézar registra, em tom ficcional, um pouco disso tudo, no filmeSão Francisco, Um Rio Cheio de Histórias.Trata-se de uma obra de ficção, mas baseada em pesquisasque Cézar começou a realizar há cinco anos. Sua primeiraintenção era realizar um filme musical, registrando os cantostradicionais. "Mas descobri que havia mais do que música",conta. "Então, pensei num documentário. No entanto, muito doque foi escrito sobre a população ribeirinha do São Francisco,em cinco séculos de história do Brasil, está perdido -iconografia, literatura e assim por diante. Então, criei, numprimeiro momento, uma ficção."São Francisco, Um Rio Cheio de Histórias está prontoe deve ser lançado até o ano que vem. Ainda no início do ano quevem, Marcus Vinicius Cézar começa a realizar a segunda parte doprojeto. Aí, sim, um documentário, que já tem título: SãoFrancisco - O Som de um Rio pretende captar as diversasexpressões musicais da bacia do São Francisco. O cineasta já tem60 horas de gravações, feitas durante o trabalho de pesquisapara a obra de ficção.A intenção é exibir o documentário (que pode serdesdobrado em dois programas) pelo canal Multishow, daGlobosat, mas ainda em salas de cinema, para alunos das redesescolares pública e particular, usando a rede do projeto Escolano Cinema, e distribuir pelo menos 500 cópias para asbibliotecas públicas dos cinco Estados banhados pelo SãoFrancisco - Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.O material recolhido pode, em outra instância, virardisco. "O processo de produção fonográfica é diferente do decinema, mas o registro será feito com o cuidado necessário paraque possa ser transformado em CD", conta Cézar."Acho que nós, do Rio e de São Paulo, estamos muito preocupadoscom Nova York, querendo parecer com Nova York", diz. "Abraçaresse projeto me dá a perspectiva de pertencer a uma nação:permite-me entender por que nós, brasileiros, somos como somos,acreditamos em determinadas coisas, temos especiais cacoetes ehábitos" - ele está tomado pela idéia."O olhar de fora é viciado: pelo menos no Sul, acredita-se queo São Francisco está seco, não é mais navegável, que estáacabado, que é um arroio", diz. "Quando mostrei a conhecidosas primeiras imagens aéreas, as pessoas ficaram surpresas -aquilo era o São Francisco, aquela quantidade de água, largodaquela forma?"O cineasta acredita que o potencial turístico do vale éimenso e deve ser descoberto em breve. A cidade de Penedo, emAlagoas, que lhe serviu de base durante a filmagem de SãoFrancisco, Um Rio Cheio de Histórias, já está sendo sondadapela indústria hoteleira internacional. "É um sítioarqueológico, uma mini-Ouro Preto, tombado pela Unesco." Elesabe que o turismo é predatório por natureza: daí, a urgência deregistrar os reisados, congados, caboclinhos, a cavalhada, amarujada, as loas das lavadeiras, as canções dos remeiros, deantes do barcos a vapor.Vale lembrar alguns registros das músicas e festas doSão Francisco, lançados comercialmente, como o CD Velho Chico- Uma Viagem Musical, de Elson Fernandes (0--61-9975-2488) e acoleção de seis discos da série Bahia, Singular e Plural, daBahia (www.irdeb.ba.gov.br).

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