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Cineasta Abel Ferrara vem ao Brasil para participar de mostra inédita

O controverso diretor prepara filme sobre Dominique Strauss-Kahn com o ator Gérard Depardieu

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2012 | 22h56

Abel Ferrara não tem fama de ser dos entrevistados mais dóceis. Fazendo jus à sua cinematografia, o diretor de filmes como Vício Frenético é uma figura surpreendente. Em conversa com o Estado na semana passada, por telefone de Nova York, onde nasceu e mora, questionou tanto quanto foi questionado. Às vésperas de embarcar para o Brasil pela primeira vez, onde ganha mostra inédita, contou que espera, além de uma "experiência mágica", encontrar produtores e distribuidores para, quem sabe, coproduzir e distribuir seus filmes no País.

 

É assim, de forma despudorada e incisiva que este nova-iorquino do Bronx lida com o mundo, o cinema e, claro, as pessoas. Abel Ferrara e a Religião da Intensidade, mostra que o CCBB promove neste mês e em maio, é rara oportunidade para ver ou rever os longas que fizeram dele o mestre de um cinema imperfeito, mas sempre intenso.

 

A maratona cinéfila começa nesta terça-feira em Brasília, passa pelo Rio (17 a 29) e chega a São Paulo dia 25, onde permanece até 6 de maio. Ao todo, serão 24 longas, incluindo Vício Frenético, O Rei de Nova York e O Enigma do Poder, três curtas e dois episódios da série Miami Vice. Ferrara, que se prepara para rodar em junho seu novo filme, participará de debates com o público nas três capitais. Entre vários assuntos, quer falar de seu atual projeto, uma série para a internet: Pizza Connection (www.vicetv.com). Mais que fazer "só cinema", para ele o importante contar uma boa história.

 

Ferrara é um dos mais controversos e polêmicos diretores do cinema contemporâneo. Explora como poucos o universo dos dramas humanos permeados por realidades violentas, em que policiais corruptos, assassinos psicóticos, vítimas com sede de vingança, viciados, traficantes e até religiosos vivem histórias de vingança, suspense, superação, sexo e amor.

 

É sua primeira vez no Brasil?

 

Sim. Sei muito pouco sobre o Brasil. Tudo que posso esperar é que seja um experiência mágica. Meu guru, aliás, é brasileiro.

 

Guru espiritual? Você segue alguma religião?

 

Sou de origem católica mas tenho praticado o budismo. Ouvi dizer que o Brasil é um país em que há muita mistura.

 

Você é descendente de italianos e irlandeses. Napoli, Napoli, Napoli foi um retorno às origens?

 

Sim e não. Sim porque tenho raízes italianas, mas Nova York é a minha realidade.

 

Porque fazer um documentário? Seu primeiro, aliás.

 

Porque era o projeto original. O cinema é sempre documental. E Napoli Napoli Napoli nem é um documentário puro. Percebemos que era impossível filmar a história do submundo de Nápoles sem escrever e usar a ficção. E acabamos dramatizando o filme. Você gosta dele?

 

Gosto. Esta realidade dos jovens sem oportunidades que caem no crime, os brasileiros conhecem bem. É também uma realidade que você conhece e que filma muito.

 

Sim. Gosto de investigar a natureza das pessoas, principalmente em condições inóspitas. É isso que mais me interessa.

 

E já trabalha no filme novo.

 

Sim, sobre Dominique Strauss-Kahn. Você o conhece?

 

Sim. Como vai estruturá-lo?

 

Você sabe mesmo quem é ele? Se sabe, me diga quem ele é.

 

É francês, ex-diretor do FMI, está sendo processado por assédio sexual... E quero saber de sua expectativa para dirigir Gérard Depardieu neste papel polêmico. É um trio explosivo, você, Strauss-Kahn e Depardieu.

 

Vai ser um filme sobre política, sexo e poder. Não é só sobre Strauss-Kahn. É sobre pessoas que têm este tipo de vida. E Isabelle Adjani também vai estar no filme. Estou muito animado!

 

Você é perfeito para o filme.

 

Talvez. Sempre me interessei de fato por este universo. Filmaremos em junho, em Washington, Nova York e Paris.

 

O que mais gosta nesta ideia?

 

Da oportunidade de poder filmar a natureza das relações humanas. Entre marido e mulher, como com Bill e Hillary Clinton... É isso que me seduz.

 

O nome da mostra dedicada a você no Brasil é Religião da Intensidade. Gosta do nome?

 

Sim. Como falei, de certa forma, tudo é documentário. Quando filmo, filmo um personagem em relação a uma realidade. Gosto de fazer com intensidade para que seja o mais real possível.

 

De onde vêm suas ideias?

 

Esta é a pergunta mais difícil do mundo. De onde vêm as suas?Quem é que sabe de onde as ideias vem? Vêm do mundo externo, vêm de dentro de mim. Do que eu observo. Vem de tudo. De eu pensar se vai funcionar na tela, em uma sala escura e fechada.

 

Mas quando penso em seus filmes, com violência, sexo, perdão, me parecem um quebra-cabeça.

 

Vêm de cada momento da vida, de todos os lugares. Por isso é um quebra-cabeça.

 

Você gosta de filmar com jovens?

 

Sim. Não ensino nada para eles. Simplesmente aprendemos quando trabalhamos juntos. Não interessa quantos anos se tem, mas o que está no coração.

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